CONTOS IN CANTOS
Sou de palavra pouca, falo com olho, economizo boca
sexta-feira, 26 de abril de 2013
MODELO PARA PERFIL EM SITE DE RELACIONAMENTO
O site facebook insistiu tanto com aquela caixinha "sobre você", que a gente pega clicando no "sobre", embaixo da nossa foto de mural, que resolvi contar logo a verdade toda, rascunhei minha rápida biografia. Pronto, meu perfil está quase completo, hehe.
"SOBRE VOCÊ"
Sou negra, 1:80 de puro onix, cabelos encaracolados e longos, corpo de deusa grega, rosto de uma perfeição de fazer babar de inveja todas as mulheres do Planeta Terra.
Vim de uma civilização extinta por explosão de meteoros, o foguete em que me colocaram para preservação da espécie caiu em 1905 no Deserto Mojave [Califórnia, na América do Norte].
Devido a grande incidência de cobras por lá, não havia condições de vida, pois não me adaptei ao cardápio. Cobras são de difícil digestão e acabaram me causando transtornos no tubo endo, que aqui vocês conhecem como estômago. Tive fortes crises do que [vim a saber posteriormente] humanos chamam de azia.
Apesar de estar aqui desde 1905, não aparento a idade que tenho, graças a contagem diferente de tempo do meu planeta. Não sei como as terráqueas aguentam estarem velhas por volta dos 60, 70 anos.
De onde vim vivemos em torno de 800 sem aparentar idade. E é isso que tem me causado alguns transtornos neste planeta, sou obrigada a viver mudando de residência, de identidade, vagando de um lado ao outro deste mundo esquisito. Mas até que estou me saindo bem,conseguindo com facilidade, o povo daqui cria em menos de 24 horas qualquer documento que se queira, acho que é ilegal, mas quando sugo, com meu sensores pulsares, o papel que chamam de dinheiro [gosto de fazer isso em uns prédios denominados Bancos, lá tem muito! O faço invisível até passar por todas as barreiras] e os entrego a eles, riem igual crianças e me arrumam um caderno pequenino, de nome passaporte, já com vários carimbos, e aí vou de um canto a outro em naves bem diferentes das do meu planeta. Quase não cabe meus pés e fico chutando a cadeira da frente. Quando trazem refeições e as apertam entre as cadeiras, ou poltronas, fica mais complicado. Mas agora já aprendi a comer a comida daqui, só fujo dos cachorros, parece que em quase todo o mundo eles são tratados como iguais, praticamente venerados, só consegui provar o sabor na Costa Rica e na China, lá faz parte do cardápio.
Consegui, por uma passagem pela África, misturar meu código de formação e informação com o DNA de habitante local. Fui atraida pelo esplendor da cor do espécime, de onde vim somos todos de um azul puríssimo, aqui é meio confuso, tem muitas cores. Isso é estranho. Deve ser porque são muito rudimentares ainda. Mas, não quero falar mal de onde estou abrigada e escondida, foi um desabafo tolo. Só agradeço a compreensão, o povo é muito amistoso. O espécime homem então é de uma cortesia, vivem me convidando para jantares, me dão umas plantas esquisitas amarradas num ramo, o nome desta planta é flor, mas tem vários tipos todos são ruins de gosto. Não me adaptei a comê-las, prefiro uma coisa que eles pedem e chamam de massa, também tem vários tipos e todos são bons. Para beber usam uma bebida que pode ser branca ou vermelha, dependendo da comida, vinho, eu acho. É muito bom, podem tomar que vão gostar.
Devo ter adquirido alguns hábitos da gente daqui, pois passo tranquilamente por nativa.
Como devo ficar ainda uns 700 anos neste planeta atrasado - ninguém fala em foguetes, viagens ao espaço, se existe deve ser confidencial, não tenho como descobrir um lugar mais avançado tecnologicamente neste Universo - Vou tentando me inserir, vez por outra cometo um negócio que eles dizem ser gafe, como no dia que comi umas rosas amarelas na recepção do presidente de um país que parece que manda em tudo. Engasguei e perdi uma noite com ele fazendo uma coisa estranha chamada sexo. Não é ruim, mas também não é bom, é só esquisito. Torce o corpo pra cá e pra lá, se vira de ponta cabeça, tudo muito doido. Depois o espécime homem dorme de boca aberta, fazendo uns ruídos bastante incômodos.
E não posso esquecer de dizer que amei esta máquina de conhecer gente, não importa onde morem, você aperta o botão da seta na foto e a pessoa entra na sua tela e aí conversa muito, como gosta de escrever e falar este povo!
No meu planeta não vi isso, já deveria ter sido jogado como lixo, no buraco do Universo, quando nasci. Os seres de lá só precisam pensar no outro, que este aparece, imediatamente, bem na sua frente.
Pena que tenho receio de usar meus atributos aqui, posso ser interpretada de maneira errada.
Bem, espero que seja isto que este quadradinho queria saber quando se intitulou "Sobre Você". Achei que o você, no caso, era eu, acertei?
[elza fraga]
Foto: Imagem de modelo branca, escurecida artificialmente para a matéria da Revista francesa Numéro, retirada da Net
quinta-feira, 18 de abril de 2013
CRIANÇA TEM FARO
Criança tem faro, dizia a mãe em suas reclamações.
Farta em maternidade, tinha sete, sabia do que falava!
Elas sentem o cheiro da sua fragilidade e atacam com os pedidos, um tal de mãe quero isso, mãe quero aquilo.
Sentem o cheiro da sua brabeza e se escafedem, só espiam de longe, medo de broncas nem tão indevidas.
Na sabedoria das avós, mães em dosagem maior, a gente não sabe porque está dando o carão, mas as crianças sabem porque estão levando.
Sentem o cheiro da sua sensibilidade e se aconchegam pros cafunés. Aí tudo podem, e um avisa ao outro que a mãe hoje está pra conversê.
Sentem o cheiro do seu medo e se acuam, medo contagia como doença das brabas. Se encolhem, ficam minúsculos pontinhos, só olho de fora!
Sentem o cheiro da sua animação e se vestem de festa. A algazarra come solta. A vida fica toda colorida como se, num passe de mágica, todos os lápis coloridos caissem sobre o mundo e rabiscassem tons alegres e os nem tanto.
Sentem o cheiro da sua inquietude e espiam pela janela a chegada dos faltosos: "Cadê o pai, manhêêê, por que 'tá demorando?"
E aí, um belo dia, elas crescem quando menos se espera e a mãe desespera.
Cadê as crianças que estavam aqui?
O gato comeu!
Só deixou gente grande, tudinho sem faro, em seus lugares.
E a falta da molecada trabalhenta rói as tripas, até largar a mãe no osso, pedindo arrego à vida e remexendo o baú do passado atrás da gurizada... Querendo tudo de volta.
[elza fraga]
sábado, 13 de abril de 2013
SERÁ O APOCALIPSE?
Estamos entrando num mundo novo, e, por novo, desconhecido e amedrontador.
Vejo coisas, ouço coisas, sinto medo, mas não quero me esconder nas cobertas da cama pra toda a eternidade.
E o que é o meu pavor para as mentes sem limites que planejam nosso futuro?
Sim, se a gente teimar em pagar pra ver e continuar vivo, este futuro tenebroso será nosso também!
Cada dia menos um "isso pode" e mais um "isso não pode".
Cada vez mais aumenta o bloco dos intolerantes em todos os campos.
Tomaram de assalto as esquinas da vida e ocuparam todo o espaço cedido pelos nossos pés recolhidos
Os preconceituosos, na surdina da calúnia, tentando descalçar reputações para dominar melhor o quinhão já abocanhado.
Irmão contra irmão. Credo contra credo. Cor contra cor. Raça contra raça.
A turma dos perfeitos contra os "diferentes".
A diversidade apedrejada por cada um que acha a sua verdade a única e inquestionável.
Não é confesso, é tudo feito as escuras!
O ato do desamor e da segregação é solitário e escondido em almas e mentes que se acham "superiores e poderosas".
A intolerância escapa pelas beiradinhas, quando tentamos abafá-la ela se retrai, se apaga temporariamente como arquivo morto, pra ressurgir à frente, imbuída de mais força e mais comandados!
E segue a legião de zumbis atrás dos líderes desta insânia.
As feras começaram a mostrar os dentes!
E eu me sinto tão criança, tão desprotegida, apesar da idade estar avançando rápido e me engolindo no tempo que não empaca nem pra respirar, corre maratona feito louco.
Não sei me defender e choramingo com medo do bicho-papão moderno e sua corriola de terrores noturnos, os monstros que moram atrás das cortinas e se aproveitam do silêncio das madrugadas pra pegar quem não dormir.
A internet joga fatos e boatos, como uma doida sem camisa de força, nada pode deter seu poder de noticiar, propagar ou inventar, afinal moram homens dentro dela.
Não entende que nossas modestas cabeças não conseguem digerir tanta informação estranha, caindo como raios riscantes sobre o cérebro já embotado pelo terror do que ainda pode vir.
E os jornais se tornam ameaças reais:
Abro ou não abro? Leio ou não leio?
Com que notícia hoje eles farão da minha insônia uma tensa e dolorida corrida de pensamentos desencontrados?
Assino quais manifestos?
Participo, ou não, de passeatas?
Rezo ou tremo frente a tantas novidades tortuosas?
Choro por mim ou por eles?
Quem vai ouvir meus pedidos de que seja só um pesadelo, e vai me acordar num solavanco salvador?
Fico ou desço do mundo?
Quando invadirem minha cabeça com o bendito apagador de memória, elevarei a última prece que restará registrada e agradecei por estar me tornando mais uma na fila dos sorridentes vazios.
In nomine Patris, et Filii et Spiritus Sancti. Amen.
[elza fraga]
sábado, 23 de março de 2013
O CONTO PERDIDO
Sabia que era um conto vindo de mansinho assim que doeu no ventre e subiu peito acima tentando destrancar a garganta.
Pensei, ah, te peguei, agora fica paradinho aí, que vou começar a desenhar as letras.
Desceu goela abaixo correndo.
Era um conto tímido.
[elza fraga]
quarta-feira, 20 de março de 2013
ERA UMA VEZ... A LUA
[Uma pequena contribuição para o Dia Internacional do Contador de História -- 20 de março]
Era uma vez...
Um lugar distante onde só morava a lua, não tinha habitante. Todas as noites descia pelo céu aquela moça branca e nua, atravessava toda a rua sem asfalto lá do espaço, se mirava em todas as lagoas, brincava com as águas riscando com seus raios. Sonhava com o dia em que chegassem os sapos, ao menos os sapos, pensava distraida...
Um belo dia chegou uma grande comitiva em seus cavalos alados, pedido atendido, mandaram não só sapos, mandaram os humanos, seus ódios, suas crias...
E a lua, escondida, suspirou num desabafo: Nem precisava tanto...
E até hoje quando ela vê discórdia se esconde entre as nuvens. As vezes se transforma, vira minguante de tristeza. Crescente quando sente que tem criança perto. Quando vê sorrisos e abraços, fica cheia pra participar da festa da alegria. E quando vê muita maldade fica nova pra resgatar a pureza perdida... Coitadinha da lua que se vira em quatro pra tentar agradar a todo o planeta, afinal, lembra ela, quem foi que pediu tanto pra ter companhia?...
Ela não me contou ainda, mas -acho eu- que até se arrependeu.
[elza fraga]
segunda-feira, 18 de março de 2013
TERAPIA DO ABRAÇO
Tenho um amigo ateu até o osso... Nas vezes que o encontro, discutimos filosofia, falamos com ironia de literatura, de música, de arte, ele cansa rápido, talvez medo que eu tente convencê-lo da vida pós morte. Aí busco seu abraço que dá claridade, como tem conforto o seu braço forte, abraço que abençõa, mas me calo, deixo em segredo, pra não perder a bênção, só fico ali, presa no abraço até me preencher da Luz que ele emana. Quando cada um vai pro seu lado e digo vai com Deus para um incréu, ele sorri e segue, eu paro na calçada até sumir seus passos.
Tenho um amigo negro de luzir... Nas vezes que o encontro meu sorriso brilha de ver sua alegria em sorrir pra mim. Como é bom seu jeito de menino grande, seu andar gingado, amo seu abraço. Quando ele parte meu olhar estica até que dobre a esquina com seu passo largo. Sinto segurança por toda uma semana, pois fico com as palavras mais fortes e amigas dançando comigo, como se ele fosse para um lugar distante, mas deixasse o abraço até o seu retorno.
Tenho uma amiga simples de dar gosto... Fala tão macio, sabe tudo um pouco, mas não se aprofunda, se poupa da dor, diz que quem aprende muito não consegue entender o que está por perto e fica com a cabeça, permanentemente, perdida na lua. Abraça apertado de doer costela, mas dá uma vontade de ficar pra sempre dentro do abraço dela, aconchegadinha. Quando parto, olho para trás até ter torcicolo, numa má vontade de ter que partir, até ela sumir nas sombras do portão. Sinto seu abraço até chegar em casa, é só fechar o olho e abrir a porta do meu coração.
Tenho uma amiga, menina ainda, nem sabe o que quer ser quando crescer... Quando ela me vê seu olhinho brilha tanto que me dá vontade de me enternecer e repetir, só pra mim, baixinho, a frase tão batida de Saint-exupéry, que sou responsável pelo que cativo. Pede uma história que conto com gosto, me escuta atenta, só mãos inquietas, acompanha cada gesto pra não perder um ponto, uma reticência, um pulo do sapo, o passeio da princesa, nada lhe escapa. Antes de ir correndo para a brincadeira passa seus bracinhos na minha cintura, me abraça e diz um "upa", lhe respondo rindo que foi meu melhor abraço em um ano e meio.
Tenho um amigo poeta... Pensa que é louco porque pensa muito, mas acho até pouco tudo o que ele pensa, porque quando me conta do raio de luz que atravessou o céu vindo da estrela que ele acredita que seja a amada já perdida em outra vida. Batida de carro, sobrou muito pouco, só a dor, a poesia não escrita, e o soluço que sufocou a escrita. Ah, quando ele me abraça, transfunde poesia como quem doa sangue. E fico apertada de nó na garganta querendo prendê-lo dentro do meu braço pra calar o pranto que chora pra dentro. E sigo seus passos até a segurança do seu espaço, sem que ele perceba, para protegê-lo dos seus pensamentos e da solidão.
E quando penso nas pessoas que não tem nenhum abraço me dá uma vontade louca de sair repartindo todos os que ganho.
Mas me disseram um dia que gente grande tem vergonha de ser abraçado, eu não acreditei, mas não me arrisquei... ainda.
[elza fraga]
DEFININDO AMIZADE
Assim defino amizade :
Ela é irmã da compreensão e da aceitação.
É ver o amigo/irmão com suas imperfeições e dizer a própria alma, também tenho as minhas, vou focar apenas nas coisas boas que este meu ser querido tem, pois isso é mais importante.
É aprender a entender o dito e o não dito, sem achar que cada palavra mandada é uma agulha enfiada na carne da gente, pode ser que se esteja percebendo errado o peso de cada uma delas.
É dar um voto de confiança, antes de julgar.
É não exigir a perfeição, ninguém a possui.
É não reclamar da pessoa, com terceiros, quando a mesma não está presente.
É dar o direito ao outro de ser diferente em qualquer área:
Torcer por outro time. Não comungar na mesma fé. Ser de outro partido. Pertencer a outra raça. Gostar de pagode.
O amigo mesmo tudo pode sem perder a condição e o contrato selado, carimbado, chancelado, autenticado para sempre!
A amizade é quase como dar um ingresso vitalício a outro ser para que ele assista a história da nossa alma.
E tem um valor que nem se mensura, pois não se coloca plaquinha com preço em amizade expondo nas esquinas!
Se não for neste tamanho e nesta doação, desculpe, não é amizade, é companheirismo, é coleguismo, é relação social apenas!
Temos, e rápido, que aprender a diferenciar uma das outras pra que a vida fique mais fácil de ser levada, porque qualquer fardo a mais que se carregue por engano, pesa, e muito, nesta louca e bela viagem.
[elza fraga]
domingo, 10 de março de 2013
TENHO AMIGOS SIM, E DE QUE QUALIDADE!
TENHO AMIGOS SIM, GRAÇAS! E TENTO SER UMA PESSOA "LIMPA" DE ALMA, ISSO ME PARECE MAIS IMPORTANTE QUE QUALQUER OUTRA LIMPEZA
[Mas descobri que a minha transparência, postura e limpeza vem incomodando um pouco a uma minoria mal amada!]
Tenho amigos sim! Honestos, fiéis, irmãos 'quase', talvez nem 'quase', pois o sangue que corre nas veias humanas é igual em tonalidade, muda a tipologia, não o conteúdo. E estes amigos/irmãos são todos sinceramente comprometidos com a verdade, e me rejubilo por cada um deles em minha vida... Somando, amparando, alegrando meus dias noturnos [paradoxo? Não! É que existem dias escuros como a mais escura madrugada].
Tento, me esforçando na medida máxima, devolver o carinho, o conforto e os sorrisos em igual medida e os reverencio a cada segundo. Não citarei nomes, pois são tantos que posso, sem querer, deixar algum de fora. Mas quem ler este texto saberá o quanto cabe aqui, ou não.
Meus amigos não foram achados, encontrados, feitos, foram "reconhecidos" no decorrer da vida, pois me acompanham em muitas. E eles tem o mesmo júbilo que eu em me contar entre seus amigos, sabem o peso e o comprometimento desta palavra.
Eles fazem parte das minhas preces, tanto quantos os que se orgulham de dizer que não gostam de mim e tentam levar mais gente na corrente fazendo intriguinhas meio debilóides, quase infantis... Será que este segundo grupo não entende que existe gente que ainda não se emprenha pelo ouvido?
Estes, os que caluniam e usam seu tempo na fofocagem e deboche, se, num assomo de hipocrisia, disserem que são meus amigos, me ofenderão mortalmente
Mas, como nem tudo é lodo e madrugada feia e escura, ainda existem dias de sol brando, tardes de arco-íris e noites de lua cheia, muita gente [olha que usei a palavra gente, pra mim bem mais forte que "ser humano" ou "pessoa"] gosta de mim sim!
Olhares e corações não conseguem disfarçar o sentimento.
Só os hipócritas pensam que conseguem, mas fazem uma espécie de engano em causa própria, são eles os enganados o tempo todo. Chega a hora em que as máscaras caem. Mas, antes mesmo delas cairem, eles são tão execrados e caluniados pelas costas, quanto caluniam os outros. Até quem os ajuda na maledicência, sai dali espalhando veneno contra eles, numa louca roda que não acaba nunca para os infelizes que sobem neste círculo endoidado.
Vampirizam e são vampirizados.
Dói em pessoas do bem saber que muitos destes tiveram sempre oportunidades de atravessar pro lado da Luz. Alguns inclusive usam o disfarce de alguma religião, frequentam templos, conspurcando o Sagrado Nome do Criador.
"Quem leva calúnias e maledicência para alguém, informações, fofocas, também tem outros amigos, e leva, no mesmo teor, notícias fresquinhas, verdadeiras ou não, deste alguém para a sua outra corriola." E este é o risco que corre o maledicente...
Mas, como diz o velho ditado: "Quem está na chuva é pra se molhar"
Eu, felizmente, uso capa e guarda-chuva.
E tento não ser melhor nem pior que ninguém, apenas fazer o meu comum da maneira mais justa possível, rezando na cartilha que diz sobre o: -- "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo".
Respeitando estas duas orientações facinhas de serem cumpridas a vida se torna fardo menos pesado, mesmo quando nem tudo na vida da gente cheira bem como algumas flores, porque para narizes sensíveis algumas pessoas, que se pensam belas por fora, fedem no interior de se sentir longe!
E aqui encerro este assunto que nem doeu... Vindo de onde veio nem poderia doer, mas deixou um profundo sentimento de pena misturado a nojo.
Bitokitas de Luz aos Amigos que sei que são muitos e iluminados, agradeço a Deus por cada um deles!
E meus votos de que a minoria [de um ou dois, talvez três, quem sabe ao certo?] ainda tenha tempo, nesta vida, de passar pro lado da Luz!
BALANÇO GERAL
Sinto falta do tempo perdido com pessoas que não entenderam a doação de minutos preciosos, horas gastas em conversas que só entraram em orelhas, donas de ouvidos que nunca participaram.
E dói mais quando percebo que perco muito mais tempo ainda, sentindo falta!
Sinto falta da moleca que fui até pouco tempo atrás e que a ciência, numa tentativa de ser maior, desconstruiu, e deixou peças faltantes para que não possa mais montar este quebra-cabeça que chamam de vida. E como corre rápido este tempo enquanto cato os cacos...
Sinto falta do ar que nem agradecia, pois era farto, de boa qualidade, sem esforço me inflava pulmões e fazia a máquina andar azeitada. Hoje, tão raro, sugo em tentativas de continuar de pé.
"Só mais um pouco, só até a próxima esquina", repito, tentando respirar enquando ando, como mantra.
E sigo, meio fantasma, meio zumbi, cambaleando na estrada, já quase vendo a placa de saida.
Sinto falta dos amigos e agregados que sumiram nas curvas, nas encruzilhadas, na calada das noites mornas, num "vou ali" sem endereço. E é mais tempo que perco ao perder o olhar no vazio procurando seus vultos, mesmo com a certeza que a espreita é vã, nada mais será igual ...
Outras pessoas entrarão, amigas ou não, ficarão o tempo necessário pra me fazer o bem ou o mal que mereça, estas também sumirão nos caminhos sinuosos da minha existência. E perderei mais tempo lamentando o futuro que nem chegou e, quem sabe, nem chegará?
Sinto falta da casa cheia, dos risos fartos, das visitas inesperadas e bem-vindas, da convivência que existia quando eu era gente. Sinto falta de ser, novamente, necessária. Mas sei que há o tempo de rir e de chorar, e é no riso que se acumula e no choro que se perde.
Sinto falta do que tive e jamais terei de volta.
E sinto falta do que não tive por usar o tempo de forma errada, com gente errada, com conceitos errados, com visão errada, com palavras erradas, com decisões erradas, com vida errada.
Acho que dentro do meu corpo mora a alma errada, me deram senha trocada na hora da vinda...
Sinto falta de não ter acertado de primeira e ter escoado a vida pelo ralo da ignorância e me acuso, ré confessa, de não ter percebido, a tempo, que gastei todo o tempo com quem nem me merecia segundos...
Sinto tanta falta!
[elza fraga]
sábado, 9 de março de 2013
CARAPUÇA
PARA AQUELE(A) QUE SE ABORRECER COM ESTE TEXTO
[Nao vista a carapuça, é só um artigo a respeito da área comportamental humana]
Acho que eu já disse, mas repetir isso hoje vai me fazer bem a alma:
Tenho uma vergonha imensa de pertencer a raça humana. E cada dia aumenta!
Raça que mente, usa até seu tempo de "cuidados com a beleza" pra fazer maledicência e tranças em conversas nem tão secretas com massagistas e manicures, nos escondidos dos seus quartos, onde deveria haver respeito, conversas sadias, amor ao próximo, para que a presença dos seres iluminados pudesse, na hora do descanso, se chegar e velar pelo sono, dar o refrigério do amor Divino.
Sem entender que "beleza" mesmo é não falar de quem não está presente para se defender. Beleza mesmo é conversar sobre coisas decentes, é aprender a domar a lingua com conversas construtivas.
Ninguém é obrigado a gostar de ninguém, mas uma das leis que Jesus nos deu pra seguir quando aqui esteve foi a de amar seu semelhante como a si mesmo.
Então, mesmo não gostando, temos o dever de tentar amar e respeitar o próximo e só dizer dele [ou fazer a ele] aquilo que gostaríamos que nos fizessem.
Nem é difícil, um bom treinamento e o "orai e vigiai", pronto, se consegue rapidinho.
Muito mais difícil é tramar e urdir mentiras, inventar fatos, jogar lama em nome alheio, apenas para esconder fatos concretos, situações insustentáveis que não se conseguiu resolver e que está prejudicando terceiros e quartos. Então se espalha mentiras a respeito dos envolvidos para distrair o foco da incompetência própria!
Beleza mesmo mora dentro de alguns poucos. E a estes eu respeito e admiro, pois ainda consigo enxergar quando o interior é luz.
Tanta gente que luta para ser bela com alta tecnologia [rsrs], mas que se os outros mortais conseguissem olhar o interior, fibra por fibra, fugiriam da visão dantesca, porque levam a visão do inferno dentro de si.
Raça suja que usa a covardia como arma e fala do que não sabe, não viu, não tem provas, pelo prazer de encher a boca imunda com o nome de quem nem no seu toca.
Gentinha insana, mesquinha, despudorada [no sentido de não ter freio na lingua devassa].
Esteja a vontade quem vestir a carapuça para imprimir e vir com o peso da lei, porque hoje em dia as ameaças são frequentes para aqueles que não são coniventes com a mesquinhez de certos infelizes que se comprazem no mal, chafurdam na lama, e perdem precioso tempo nos "santuários de seus lares" para destruir reputação com invencionices malucas.
E a quem tem tempo sobrando pra tanta maldade, um conselhinho e dou de graça, dispensa a lavadeira, a faxineira, mete a cara no trabalho sujo, que garanto, não vai sobrar um segundinho sequer pra embelezamentos exteriores feitos enquanto se cultiva a arte perniciosa da calúnia, do desamor.
Ah, se ainda assim sobrar tempo, por milagre, pode vir até o meu apartamento, parece que ele anda meio desprovido de limpeza, sabe como é, a dona da casa doente não dá conta do recado, rs!
Não exijo perfeição, todos somos sombra e Luz, mas repito, me envergonho de estar "ser humano" no meio de tanta podridão que avança em onda lamacenta tentando me atingir. Não vai conseguir, sou imune a cobrices e sujeiras, me vacinei!
Levo uma máxima, desde jovem, vida a fora:
"O que os outros pensam e dizem a meu respeito é problema deles, eles é que vão acertar esta conta com Deus. O meu problema é o que penso, falo e como ajo com os outros, porque por isto eu responderei!"
E por seguir esta máxima a risca é que na minha casa entram poucas pessoas, só gente do bem e da Luz, daqui não sai fofoca, maledicência e nem trancinhas da vida alheia.
Talvez por não fazer parte do coro dos infelizes e maldosos caluniadores, não permitir este tipo de comportamento dentro do meu lar [porque o meu eu respeito, quem não quiser respeitar o seu, esteja a vontade], eu seja sempre o alvo, mesmo que eles saibam que estão mentindo...
Mas o que é uma mentirinha a mais ou a menos para gente sórdida. não é mesmo?
Eu ia fechar com a frase que uso para os amigos:
"Fiquem na Luz",
Mas acho que esta é mais apropriada:
Busquem a Luz!
sexta-feira, 8 de março de 2013
TODOS OS DIAS SÃO NOSSOS
[Que a gente consiga administrar o tempo, porque ser mulher é dolorido, mas é doce e gratificante quando se organiza as prioridades]
O mundo progrediu... A mulher foi de carona?
Ou conquistou no braço, no suor, na marra, seu quinhão de independência?
E que independência seria esta?
Existe mesmo esta talzinha de que tanto falam, mas que, quem mora dentro de um corpo de mulher, procura, procura, e fica a ver navios?
É fato: Mulher em mesmo cargo que homem, mesmo tendo maior escolaridade, ganha 30% menos que ele. E aí entra a independência e a liberdade de poder chiar a vontade.
Mulher ainda tem tripla jornada: Profissional, mãe e doméstica.
Mulher, mesmo tendo que tomar decisões amadurecidas e sensatas, tem que ser jovial.
É essencial que não perca a ternura da menina, que não deixe a mostra a raiz grisalha, que não engorde, que tenha a palavra certa para manter a paz do lar, que assuma seu ofício sem reclamar.
Mas que ofício é esse que esconde tantos?
Mulher é mil e uma utilidades?
A violência contra a mulher aumentou? Ou é reflexo da liberdade de reclamar, a mulher perdeu o medo e agora aponta o dedo pro algoz e este fato alterou as estatísticas?
Ou diminuiu? Mas como se ainda vejo mulheres amigas inteiramente submissas, falando baixo na hora do futebol do seu macho? É respeito, medo ou mistura dos dois?
Muitas vivem assustadas com que humor ele pode chegar da labuta, mas, vindas também da luta, obrigadas a dar o seu melhor.
Afinal família come, e quem é responsável pelo jantar, trabalhe fora de casa ou não?
Não é que ser mulher seja difícil, não! Ser mulher é quase impossível.
A sociedade moderna ao nos abrir portas, nos tributou com encargos pesados demais, nos fez acumular onde era pra trocar.
Nada contra homens em geral, até gosto, sério!
Mas já passou da hora da avaliação, com propriedade e boa vontade, do que realmente a mulher ganhou [ou perdeu].
Fechar as contas no vermelho já é normal, temos que partir pra contabilidade mais confiável, puxar dados, fechar dentro do nosso orçamento/alma.
Começar a distribuir tarefas para as várias mulheres que moram dentro da mesma casca.
E a primeira, de cara, é dura, é descascar o abacaxi mais espinhento que já vimos.
Homem é diferente na anatomia. Talvez na maneira de pensar também, mas quem pode mudar isso?
A mulher! Como educadora, criando seus filhos como iguais, respeitando as diferenças e incentivando a igualdade.
Depois partir pra segunda, não somos super em nada, ou vamos a luta atrás de dinheiro ou vamos ser domésticas. Escolha.
Se optou pela primeira não abra mão de estar com os filhos e o companheiro, eduque com pulso firme, mas doce.
Mas tenha lazer e não tarefa e obrigação, terceirize seu lado doméstico, dê responsabilidades a quem divide o mesmo espaço. Não se deixe domesticar pra fazer tudo no automático porque algo vai ficar incompleto.
E a terceira é apenas um conselho:
Perca o medo!
O medo de não ser boa o suficiente. O medo de dar pouco tempo pros agregados. O medo da maturidade. O medo de falar o que sente. O medo de ser você mesmo, sem máscaras. O medo de levar desaforo pra casa. O medo de deixar de ser a "mulherzinha" cheirosa. O medo dos filhos, sim, mulher tem medo de filho, de opinião de filho. O medo de viver com as rédeas soltas.
Esqueça todos estes medos, levante o nariz, faça só o que sua estrutura aguenta, porque o dia que acordarem com a casa no maior caos, a comida fora da mesa, a organizadora fora do ângulo de visão [sempre deixe um bilhete na geladeira, funciona que é uma beleza: "Fui ali fora ver a vida passar em ritmo mais lento!" ];
a família, com certeza, vai entender o recado, fazer o mutirão e colocar tudo ajeitadinho.
Agora, se você é uma das poucas com o privilégio de ter um suporte vinte e quatro horas por dia, em forma de arrumadeira, cozinheira, governanta, relaxe... Este texto tem zero por cento de chance de ser pra você.
[elza fraga]
terça-feira, 5 de março de 2013
ARRUMANDO AS MALAS
Abriu a janela, teve medo dos raios... Fechou e cerrou cortinas.
No inferno do quarto quente se desejou morta, achou uma tarde ideal pra se morrer de repente.
Ninguém ia sentir muito a sua falta.
Talvez demorassem semanas a perceber a ausência.
Mas a morte não vem célere, ao primeiro chamado.
Ela foge de quem a busca e caça os fugitivos.
Muito louca esta tal de morte, e ingrata ainda por cima.
Por acaso não sabe que larga retalhos de pele e ossos, que nem mais gente é, esquecidos, nesta sua seleção macabra?
Abraçou os ossos do joelho, quase feto, tentando voltar ao útero do universo.
Nada mais lhe era de gosto, nem verso lhe fazia gozo. Nem de ler, nem de escrever!
Só queria um pedacinho limpo de morte, uma canção leve pra ajudar o transpasse, mãos que a segurassem no salto por sobre o abismo, ou asas, quem sabe?
E a ausência de dor por toda a eternidade.
Decidiu.
Abriu a janela, inventou as próprias asas, e fez o serviço que a louca da morte vinha protelando por castigo ou preguiça.
E voou em busca de abrigo, agora novamente livre de amarras.
Pronto, já podem chegar os abutres pra divisão do festim.
Tim tim!
[elza fraga]
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
MAKTUB
A palavra Maktub [traduzida na maioria das vezes como "era escrito", "estava escrito"] quer dizer, em tradução literal, "carta", e vem do árabe.
Forma alguns conceitos que corrobora a tese em que muitos acreditam: Destino traçado.
E isso pode não ser tão bom, dá a falsa impressão que somos sempre vítimas da missão que nos escolheram, merecedores da Misericórdia Divina.
Trava nossas buscas nos fazendo concluir que não adianta correr atrás da Luz, pois nossa cota exata já está traçada e pronto.
Convenhamos, carta é um veículo de comunicação que, se não tiver nada escrito, perde o valor de ser.
E quem escreve cartas? O ser vivo dotado de inteligência e com a necessidade de se comunicar, mesmo em palavras riscadas no papel.
" Se você continua vivo, é porque ainda não chegou onde devia" [conceito Maktub que é quase um desmentido desta fatalidade - Força que predispõe os acontecimentos.]
Igual as cartas somos todos nós, estamos vivos e viajando no tempo a procura dos destinatários certos.
Depois que identificarmos todos, nos deixar decifrar por cada um, cumprir a missão da mensagem, só então, como as cartas amareladas, já podemos ser descartados pelo planetinha azul.
Até a reciclagem, amigos, pois nos tornaremos em novas cartas. Quiça os afetos nos reconheçam na nova roupagem, ou envelope.
[elza fraga - maktub-ando]
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
MILAGRES
Vinha eu e meus botões, de cabeça baixa pra não trumpicar nos calçamentos irregulares das obras da rua, inacabadas, esperando inauguração pras vésperas da eleição. Meu olho se deparou com algo brilhante, entre uma pedra solta e outra. Abaixei, cuidadosamente, escutando o crec do joelho sequelado, e pincei com os dedos uma medalhinha, dizeres apagados pelo tempo. Uma imagem sofrida, quase
como se uma lágrima fosse descer a qualquer momento medalha abaixo.
Fiquei ali parada, como a idiota que vez por outra me toma o conteúdo,
sem decidir se abrigava o bendito achado, ou o descartava no mesmo vão
de pedra. Resolvi. Vai ter um lar! Abri minha correntinha, e no meio da
rua mesmo, passei a medalha pelo fio, recoloquei a corrente, agora com
mais um símbolo de alguma coisa incerta, ainda incompreensível. E voltei
a minha lenta caminhada, passos antes trôpegos, contados, com uma
estranha e nova alegria no peito, como se alguém tivesse soprado vida
nova pra dentro dos pulmões tão debilitados, ar renovado, esperança nas
batidas coordenadas deste coração emendado em tres pedaços.
E tem gente que nem acredita em milagres...
E tem gente que nem acredita em milagres...
domingo, 7 de outubro de 2012
NÃO GOSTO DE GENTE COM A CORDA QUEBRADA.
Não gosto de gente dúbia, ardilosa, que usa de subterfúgios pra fazer com nos enrolemos nos nossos próprios textos. Gente que não tem a lisura de ser objetivo, vive de subjetividade. Gente que se sente bem na vitimização própria.
Gente que vira o vento a seu favor roubando as velas do nosso barco. Ou até assume nosso leme quando nos distraimos numa olhada pro céu pra esticar beleza no olho.
Gente que quando faz besteira ou se embrenha nos enredos é incapaz de assumir, com humildade, com coragem, sem tentar passar a responsabilidade a frente.
Não gosto de gente grande covarde, que a maneira das crianças,
choraminga quando não tem saida, não consegue se ver encurralado nas
próprias omissões ou mentiras.
Não gosto de gente que usa o outro como desculpa ou testemunho, aumentando a corrente dos indecentes, dos incapazes de viver sua própria vida sem muletas.
Não gosto de gente que abandona por qualquer motivo, ou por nenhum motivo, só porque se acha mais triste que a tristeza do planeta. E justifica com seus males corriqueiros, que, no final, são igualzinhos a todos os outros, do mundo inteiro.
Não gosto de gente que não reage, não age, não luta, se encosta no tronco alheio como orquídea e até espalha beleza, mas só serve pra se olhar enquanto viça, depois que murcha perde a serventia.
Não gosto de gente que não ajuda, não estende a mão, não ora pelo irmão, não telefona nas horas necessárias, não chega junto e diz:
- Estou aí, pro que der e vier, sou seu amigo, seu parente, seu irmão, seu filho, seu pai,seu companheiro de jornada.
Não gosto de gente que rotula, julga e banca a santo, mas quando a coisa aperta pro outro lado, some, alega que de nada sabe.
Vê só o doente que lhe interessa, os outros, que nada tem a oferecer, podem morrer que não lhes faz nem diferença.
Não gosto de gente que só pensa em si mesmo, egoístas, armadores, doentes, com certeza, mas de uma doença que a ciência não descobre nem o nome!
Não gosto de gente que dá as costas aos problemas existentes no mundo, pois só os seus já estão de bom tamanho.
Não gosto de gente que acha que o mundo tem que lhe bater continência, suprir suas carências, girar em torno dele. E quando as coisas tomam outro rumo, deitam na cama, se desesperam, não assumem suas mazelas. Culpam tudo e a todos.
Não gosto de gente que só quer ouvir o que lhe interessa, particularmente. Gente que ainda não descobriu que somos todos elos da mesma corrente.
Não gosto desta gente, mas olha, minha gente, como tenho pena!
[elza fraga]
Não gosto de gente que usa o outro como desculpa ou testemunho, aumentando a corrente dos indecentes, dos incapazes de viver sua própria vida sem muletas.
Não gosto de gente que abandona por qualquer motivo, ou por nenhum motivo, só porque se acha mais triste que a tristeza do planeta. E justifica com seus males corriqueiros, que, no final, são igualzinhos a todos os outros, do mundo inteiro.
Não gosto de gente que não reage, não age, não luta, se encosta no tronco alheio como orquídea e até espalha beleza, mas só serve pra se olhar enquanto viça, depois que murcha perde a serventia.
Não gosto de gente que não ajuda, não estende a mão, não ora pelo irmão, não telefona nas horas necessárias, não chega junto e diz:
- Estou aí, pro que der e vier, sou seu amigo, seu parente, seu irmão, seu filho, seu pai,seu companheiro de jornada.
Não gosto de gente que rotula, julga e banca a santo, mas quando a coisa aperta pro outro lado, some, alega que de nada sabe.
Vê só o doente que lhe interessa, os outros, que nada tem a oferecer, podem morrer que não lhes faz nem diferença.
Não gosto de gente que só pensa em si mesmo, egoístas, armadores, doentes, com certeza, mas de uma doença que a ciência não descobre nem o nome!
Não gosto de gente que dá as costas aos problemas existentes no mundo, pois só os seus já estão de bom tamanho.
Não gosto de gente que acha que o mundo tem que lhe bater continência, suprir suas carências, girar em torno dele. E quando as coisas tomam outro rumo, deitam na cama, se desesperam, não assumem suas mazelas. Culpam tudo e a todos.
Não gosto de gente que só quer ouvir o que lhe interessa, particularmente. Gente que ainda não descobriu que somos todos elos da mesma corrente.
Não gosto desta gente, mas olha, minha gente, como tenho pena!
[elza fraga]
sábado, 6 de outubro de 2012
TEMPO É CASO SÉRIO
Site da imagem: overmundo.com.br
O tempo passou rápido demais! Ainda ontem era ontem, desperdício do tempo que se move, inquieto, sempre pra frente, não para pra olhar pra trás.
Hoje já é hoje caminhando pra amanhã.
E aposto que amanhã vai chegar com aquela pressa malvada de não dar tempo pra tres respiradas de fundo de pulmão.
Acho que vou, definitivamente, me mudar para o futuro, se ele já estiver de porta aberta, detesto dar com a cara no muro!
O ruim do andar por estas terras de viventes é que não tem presente, só se pressente e, pumba, já passou e já é outro presente que zomba da gente e corre atrás do anterior.
Escutei um 'causo', num passado [que o tempo ou é passado ou já passou] do sujeito que espreitou o tempo numa esquina, por tanto tempo, tentando segurar só um pequenino momento, que cansou, se fechou num sono tão profundo, que foi o tempo que, sorrateiro, lhe pegou e prendeu no fundo dum ciclone louco, que corria os dias e noites sem parar, e ele conheceu cada lugar mais lindo que o outro, coisa até de endoidar olhar, até ele não achar mais graça e cansar, e pedir ao tempo, em desespero, pra parar em algum lugar, só pra ele saltar fora do tempo, mas o tempo parece que moucou e, nem assim, parou...
[elza fraga]
O ruim do andar por estas terras de viventes é que não tem presente, só se pressente e, pumba, já passou e já é outro presente que zomba da gente e corre atrás do anterior.
Escutei um 'causo', num passado [que o tempo ou é passado ou já passou] do sujeito que espreitou o tempo numa esquina, por tanto tempo, tentando segurar só um pequenino momento, que cansou, se fechou num sono tão profundo, que foi o tempo que, sorrateiro, lhe pegou e prendeu no fundo dum ciclone louco, que corria os dias e noites sem parar, e ele conheceu cada lugar mais lindo que o outro, coisa até de endoidar olhar, até ele não achar mais graça e cansar, e pedir ao tempo, em desespero, pra parar em algum lugar, só pra ele saltar fora do tempo, mas o tempo parece que moucou e, nem assim, parou...
[elza fraga]
EXPERIENCIANDO
Andou o dia todo pela estrada poeirenta, ondulante, nem fome batia na barriga vazia. Sabia que era dura a empreitada, mas tinha escutado da mulher antiga que morava dentro dela que era possível, isso bastava.
E aí, já no final da tardinha, quando o sol descia morno por trás da montanha e quase sumia na risca do mar, ela chegou ao final da estrada. Não tinha mais pra onde andar reto, ou era subir ou voltar, estava na embocadura do céu com a terra. Resolveu num impulso: - "Vou subir mesmo que me falte o ar na empreitada".
Mas antes, pra se certificar de que não passaria por mentirosa se
voltasse pra contar a história, levantou os braços e numa ousadia rasgou
um pedaço do azul, ainda quentinho do sol batente, guardou nas dobras
do vestido, respirou fundo todo o ar que conseguiu sugar pelas narinas e
subiu o primeiro degrau...
[elza fraga]
[elza fraga]
terça-feira, 25 de outubro de 2011
A LOUCA DA PRAIA
Estou aqui lendo, me informando, me formando na matéria mais difícil.
O triste e solitário aprendizado de pular os muros que a vida teima em ir construindo a minha frente.
De meia em meia hora dou uma parada, alongo, tomo uma golada de ar e retorno.
E me pergunto se isso é o que valerá a pena.
Se não estou perdendo vida enquanto acumulo informações,
cultura vazia, diplomas de vento.
O que eu quero realmente pra mim?
Saber porque o mundo gira perfeitamente encaixado e ainda não caiu na minha cabeça?
É essa a minha meta?...Saber além da sabedoria e ciência permitida e desvendada?
Pra provar o que pra quem?
Provar que sou capaz de mais saber pra me bastar?
Será que é importante o eu me bastar?
Enquanto faço a paradinha de dez, quinze minutos,
não posso deixar de pensar na inutilidade disso tudo.
Tanto sacríficio, tanta vida escoando vazia de vida,
vazia de afeto, vazia de amor. Pra que?!
Será que alguém vai lembrar de colocar no meu caixão,
quando eu me for, os meus saberes em forma de certificados
disto ou daquilo?!
Será que alguém vai lembrar, num discurso, o quanto e como
me esforcei e perdi noites debruçadas sobre leituras vagas, filosofias baratas?!
Queria ser uma analfabeta muito amada, com um cara que falasse "pobrema" a toda hora,
mas me amasse e passasse isso no olhar, no beijo, no riso.
E me segurasse e prendesse como só os brutos sabem prender uma mulher.
Um homem que me olhasse e o olho brilhasse só por me ver, descabelada, suada,
arrumando plantas numa nesga de jardim de qualquer barraco, pendurado num morro destes da vida.
E que me elogiasse, e me chamasse de linda, e me pegasse
de jeito, e me fizesse amor nos lugares mais inusitados,
como uma cozinha, com teto de zinco esburacado,
mostrando o negror de um céu de tempestade, enquanto a chuva caia e o susto de desmoronar tudo
nos arregalasse o gozo e nos deixasse com mais gana, amando como animais no cio,
sabendo que a qualquer momento
poderíamos estar ali, estupidamente mortos, soterrados
por barro e lama, olhos esbugalhados no estertor do
prazer, e não no da morte, pois seríamos já acostumados ao risco.
E morrer de prazer seria apenas o final da espera do que já sabíamos de outros tempos, de outras vidas, de outras eras.
Um homem com mãos calejadas, coração enorme, sorriso escancarado, mas que soubesse exatamente onde mora
o prazer do meu corpo.
E o despertasse com as mãos rudes e inquietas.
Talvez isso fosse o destino perfeito, o que joguei fora ou nem procurei.
O que me faria saber preenchida... Pois esta vazia certinha, em que me tornei, cheia de não me toques e porquês,
não me atrai mais.
Quero jogá-la fora, mas se agarrou de uma tal maneira a
minha casca, a minha pele, que virou a minha extensão perfeita. A vestimenta do luto!
Não me abandona e não me deixa seguir. Marca passo junto comigo.
E isso faz uma ansiedade de ludibriá-la, sair escondida a deixando trancada.
Ir para o mundo me premiar de gandaia.
Correr no tempo, despir-me de mim e correr nua na chuva,
me doar ao primeiro, e voar como louca, gargalhar insana
e me perder e me achar...
Depois, retornar a este pesadelo e prisão, de vida pré
moldada, mas guardando no fundo do corpo o prazer
de ter sido, uma única vez, amada de verdade,
como toda a mulher deveria e merece ser amada.
Depois teria ao menos uma lembrança pra carregar,
doce fardo, pela vida afora.
Sentaria na praia, com o olhar de louca, olhando o final do mundo, lá onde o horizonte se curva
e as embarcações desaparecem, com um sorriso tatuado de recordação
do que foi efêmero e eterno. Importante e descuidado.
Valioso e vulgar...
E balbuciaria palavras desconexas mastigadas do gosto de visões de deuses.
E os passantes diriam:
Aquela é a coitada que numa única vez se emprenhou
de vida, a cabeça não suportou!
E cuspiriam os seus sorrisos de desdém na minha enrugada face.
E se iriam, felizes, pois eles sabiam que possuiam sanidade.
Mas eu, só eu, sabia o que possuia, o tesouro de ter me
dominado e me feito plena numa lua qualquer...
Numa noite qualquer... Com um homem comum e qualquer.
E isso me bastaria, até o final dos tempos....
(Elza Fraga)
Publicado em: 01/06/2007 22:56:54
sábado, 22 de outubro de 2011
NÃO SOMOS REALIDADE, SOMOS O SONHO DE DEUS
"A criação do sonho de Deus."
Um dia, nesta roda imensa do Universo, imerso na eternidade de todas as coisas; Deus, solitário a pensar,
encucou que iria criar a sua continuidade...
Fomos pensados e arquitetados para sermos criaturas de Deus...
E quanto mais Ele pensava na forma e no conteudo,
mas se convencia da necessidade da criação que
morava nos Seus ideais.
Quando começou a tarefa deve ter exclamado:
Eureca, este é o caminho!
E completou a sua obra, dando o mesmo valor e peso a mulher
e ao homem, a mesma capacidade de aprendizado,
a mesma sintonia, apenas os fez com pequenas diferenças
para que aprendessem a conviver com elas e a respeitá-las...
Bem, até aí se vê que não somos realidades, somos o sonho de Deus.
Mas as coisas começaram a perder o controle com o passar das eras.
O homem começou a renegar a sua criação Divina e a pensar que
nasceu de um acidente natural ou biológico...
Começou a inventar teorias para a sua criação.
Começou a se achar forte, detentor de toda a sabedoria,
e começou a questionar a sua origem Divina.
E aí, Deus que tinha em seus planos nos fazer seres em constante evolução,
com limitações que a matéria nos imporia, começou a repensar a sua obra.
Não no sentido de destruição, pois nos sabia criaturas tolas e fracas,
que não tiveram nem discernimento para se descobrirem um sonho e viviam como se fossem a mais palpável realidade...
Mas a prever o prejuizo que poderíamos nos causar reciprocamente...
E viu que a sua obra 'perfeita' havia pegado o freio nos dentes e
começava a renegar e a dispensar a ajuda Divina...
E aí, sábiamente, Deus nos deixou continuar acreditando que existiamos, que éramos suficientes para nos cuidarmos
e para nos provermos...
Teve pena de nos acordar do sonho...
E teve tristeza pelos rumos que tomávamos
Acredito, que a cada dia de sol, Ele desce a Terra e acorda uma de suas criaturas...
E aí ela vê que é feita do material de sonho.
E se descobre potencial divino, continuação de um projeto de Deus...
Por isso é que, vez ou outra, encontramos algumas pessoas humildes, simples,
desapegadas, diferentes, com um brilho de doçura no olhar,
mas que andam com o porte e a dignidade de um ser iluminado...
E essas, já acordadas, falam pouco, mas quando falam, é como se escutássemos a música que aquieta o coração, que embala a alma, que traz a paz...
Um dia estaremos todos acordados pra esta realidade paradoxal:
Que somos feitos de sonhos Divinos.
E aí todos teremos o brilho no olhar, a doçura na voz e a paz na consciência.
E o amor que já mora em alguns poucos corações, morará em todos.
Eu me sei um sonho de Deus, se sou louca ou apenas utópica,
isso deixo pra julgamentos dos que ainda pensam que podem julgar...
E por isso também sei que a realidade é apenas uma projeção dos sonhos, ela não existe como a vemos...
Pois a cada segundo não é outra realidade a nos surpreender?...
Eu olho o mar, viro o rosto por um minutinho, quando volto o rosto pro mar, ele já é outro mar, outras águas, outra percepção do que chamamos de "realidade"!
Por isso me aceitei sonho e me refugiei neles...
(Elza Fraga)
sábado, 19 de março de 2011
O VAZIO
...
Andei, pé ante pé, vagarosamente, arrastadamente.
Sentei a beira da cama, desfiz o nó do cabelo, deixei que caísse,
escorridamente, maciamente, sobre as costas nuas.
Senti com os dedos a maciez do próprio rosto, contornei a curva
do queixo, desci ombros e seios no contato morno e pegajoso, mistura
de banho, hidratante e perfume.
Sólida figura no espelho. Real e triste. Desarmada, desamada, solitária,
apesar do macho a ocupar grande parte do leito.
Pensei com meus botões: homens grandes não são bons. Nem os pequenos
e nem os médios, me respondeu a razão que andava ausente nestes dias de
frio e volúpia.
Voltei a excursionar corpo afora, buscando achar onde estava a sanidade se
Escondendo.
Em que prega de pele, em que fio, em que pêlo.
Nada, a não ser a culpa do pecado, para me responder, aumentando a sensação
de vazio.
Adormeci no fim da madrugada, quase morte, quase sono,
pra acordar pra mais um dia de vazio intenso.
Andei, pé ante pé, vagarosamente, arrastadamente.
Sentei a beira da cama, desfiz o nó do cabelo, deixei que caísse,
escorridamente, maciamente, sobre as costas nuas.
Senti com os dedos a maciez do próprio rosto, contornei a curva
do queixo, desci ombros e seios no contato morno e pegajoso, mistura
de banho, hidratante e perfume.
Sólida figura no espelho. Real e triste. Desarmada, desamada, solitária,
apesar do macho a ocupar grande parte do leito.
Pensei com meus botões: homens grandes não são bons. Nem os pequenos
e nem os médios, me respondeu a razão que andava ausente nestes dias de
frio e volúpia.
Voltei a excursionar corpo afora, buscando achar onde estava a sanidade se
Escondendo.
Em que prega de pele, em que fio, em que pêlo.
Nada, a não ser a culpa do pecado, para me responder, aumentando a sensação
de vazio.
Adormeci no fim da madrugada, quase morte, quase sono,
pra acordar pra mais um dia de vazio intenso.
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
NO FUNDO D'UM OLHO SECO
http://www.livropronto.com.br/produtos_descricao.asp?lang=pt_BR&codigo_produto=385
Enfim o livro parido, obrigada a todos que ajudaram com apoio, amor, incentivo...
Grata por toda a energia positiva enviada para que eu pudesse ter forças e superar os obstáculos.
Bitokitas de toda a Luz!
Elza Fraga
quarta-feira, 30 de junho de 2010
A HORA DO ENTENDIMENTO
...
Ele não mais a atenderia. Ela sabia com uma convicção dolorida e estranha.
Passara em revista todos os seus últimos atos atrás do que poderia ter gerado aquele desprezo, aquele abandono, aquele tom mordaz e frio da conversa derradeira.
Telefonar seria inútil, havia a tecnologia batizada de bina, invenção humana para se atender apenas
os que interessam por um motivo ou outro.
A mola que move o homem sempre não foi essa? A do interesse em se levar alguma vantagem?
E ela nada mais tinha a oferecer a não ser a própria morte a se aproximar sorrateira, sinuosa, fingindo que estava só por perto para assustá-la.
E quem é doido de atender e entender a moribundez do outro ser humano?
Ele é que não era !
Melhor mesmo pra ele era ficar calado, do outro lado do fio, a espreitar o número que o visor mostrava.
Bem que tentara esconder que havia um espião a lhe confidenciar que o número do visor era o dela.
Falhara na tentativa por confiar demais na sua boa estrela.
A morte não é boa companheira para quem se pensa apenas na metade do caminho.
Mal sabe ele dos critérios que movem a mão do que faz a tão temida lista.
Não é com certeza a ordem de entrada neste mundinho complicado, tem muito detalhe que nos escapa
que não nos é dado saber, não é da nossa competência.
Mas ela agora sabia, como se o véu se descortinasse total e rapidamente a sua frente,
o medo que o afastara não era ela e seu cheiro de morte,
era a consciência de que um dia a morte se aproximaria dele também,
por mais que corresse, e, como estava fazendo agora, com ela, faria com ele.
O abraçaria pra sempre.
(Elza Fraga)
Ele não mais a atenderia. Ela sabia com uma convicção dolorida e estranha.
Passara em revista todos os seus últimos atos atrás do que poderia ter gerado aquele desprezo, aquele abandono, aquele tom mordaz e frio da conversa derradeira.
Telefonar seria inútil, havia a tecnologia batizada de bina, invenção humana para se atender apenas
os que interessam por um motivo ou outro.
A mola que move o homem sempre não foi essa? A do interesse em se levar alguma vantagem?
E ela nada mais tinha a oferecer a não ser a própria morte a se aproximar sorrateira, sinuosa, fingindo que estava só por perto para assustá-la.
E quem é doido de atender e entender a moribundez do outro ser humano?
Ele é que não era !
Melhor mesmo pra ele era ficar calado, do outro lado do fio, a espreitar o número que o visor mostrava.
Bem que tentara esconder que havia um espião a lhe confidenciar que o número do visor era o dela.
Falhara na tentativa por confiar demais na sua boa estrela.
A morte não é boa companheira para quem se pensa apenas na metade do caminho.
Mal sabe ele dos critérios que movem a mão do que faz a tão temida lista.
Não é com certeza a ordem de entrada neste mundinho complicado, tem muito detalhe que nos escapa
que não nos é dado saber, não é da nossa competência.
Mas ela agora sabia, como se o véu se descortinasse total e rapidamente a sua frente,
o medo que o afastara não era ela e seu cheiro de morte,
era a consciência de que um dia a morte se aproximaria dele também,
por mais que corresse, e, como estava fazendo agora, com ela, faria com ele.
O abraçaria pra sempre.
(Elza Fraga)
UMA VIDA NA CHUVA
...
Em um dia de chuva forte ele partiu. Os raios rasgavam o céu negro. O barulho do trovão vindo do lado oeste ecoava dentro do quarto escuro. A energia que faz a luz se fora, como a sua.
E do meio do medo e do caos em que -sabia - aquela falta iria, para sempre, transformar o que seria futuro, só conseguia pensar em uma única coisa:
Será que ele levara a capa de chuva?
(Elza Fraga)
Em um dia de chuva forte ele partiu. Os raios rasgavam o céu negro. O barulho do trovão vindo do lado oeste ecoava dentro do quarto escuro. A energia que faz a luz se fora, como a sua.
E do meio do medo e do caos em que -sabia - aquela falta iria, para sempre, transformar o que seria futuro, só conseguia pensar em uma única coisa:
Será que ele levara a capa de chuva?
(Elza Fraga)
sábado, 22 de maio de 2010
TARDE DEMAIS
Ela passara a vida a mudar de dono, escrava vendida por tostões de vida.
Primeiro o pai, chicote sempre a mostra e proibições a vista.
Numa infeliz e inútil tentativa de alforria veio o marido.
E o que lhe parecera cor de rosa rapidinho virou cinzas.
Só sobrou a lembrança do bolo e da festa, depois foram noites insones de medo.
Imprevisível este novo dono, ela nunca conseguira adivinhar antes
pra pular fora dos bofetes que cada vez ficavam mais frequentes e duros.
Aprendeu rapidinho a receita da liberdade:
Vidro moído na cervejinha do final de tarde, todos os dias, religiosamente.
Um dia o pobre cuspiu sangue, levaram pro hospital, mas o mal já estava feito
Primeiro o pai, chicote sempre a mostra e proibições a vista.
Numa infeliz e inútil tentativa de alforria veio o marido.
E o que lhe parecera cor de rosa rapidinho virou cinzas.
Só sobrou a lembrança do bolo e da festa, depois foram noites insones de medo.
Imprevisível este novo dono, ela nunca conseguira adivinhar antes
pra pular fora dos bofetes que cada vez ficavam mais frequentes e duros.
Aprendeu rapidinho a receita da liberdade:
Vidro moído na cervejinha do final de tarde, todos os dias, religiosamente.
Um dia o pobre cuspiu sangue, levaram pro hospital, mas o mal já estava feito
e sacramentado.
Ela se imaginou agora livre para todo o sempre, amém!
Mas esquecera apenas um detalhe, o canalha havia deixado um canalhinha
que ele próprio adubara nas longas tardes de ensinamento.
E o que era projeto virou homem, mais parecido com o falecente impossível.
Nunca mais que ela teve pé na estrada. Desistiu.
Só balançava a cabeça em sinal de aceitação pra este último
e derradeiro dono.
Desaprendeu o não, desaprendeu a luta, desaprendeu a luz.
Cansou de lutar contra as correntes e se deixou ali no escuro, parada,
morta em vida.
E se deu conta que aprendera tarde demais a obediência.
Mas esquecera apenas um detalhe, o canalha havia deixado um canalhinha
que ele próprio adubara nas longas tardes de ensinamento.
E o que era projeto virou homem, mais parecido com o falecente impossível.
Nunca mais que ela teve pé na estrada. Desistiu.
Só balançava a cabeça em sinal de aceitação pra este último
e derradeiro dono.
Desaprendeu o não, desaprendeu a luta, desaprendeu a luz.
Cansou de lutar contra as correntes e se deixou ali no escuro, parada,
morta em vida.
E se deu conta que aprendera tarde demais a obediência.
ESTRANHAS COMPANHIAS
Cada vez que ele partia ela perdia o olho lá longe, onde a estrada encontrava o céu, mas ele sempre voltava, cheio de histórias de mundos distantes, de palavras que ela nunca tinha ouvido, cheiros estranhos
Na última vez ela ainda pediu pra ele ficar, alguma coisa dentro do peito dela tocou um sino diferente de aviso, ele não deu ouvidos.
Nem a ela e nem ao sino
E quando ela olhava pro infinito, bem mesmo no encontro da estrada com o céu, ele sumiu
pra sempre
E ela nem sabe quanto tempo faz que o olho na estrada e o toque do sino não a largam mais.
(Elza Fraga)
Na última vez ela ainda pediu pra ele ficar, alguma coisa dentro do peito dela tocou um sino diferente de aviso, ele não deu ouvidos.
Nem a ela e nem ao sino
E quando ela olhava pro infinito, bem mesmo no encontro da estrada com o céu, ele sumiu
pra sempre
E ela nem sabe quanto tempo faz que o olho na estrada e o toque do sino não a largam mais.
(Elza Fraga)
sexta-feira, 21 de maio de 2010
NOSTALGIA
Hoje, quando passava perto da barraca de frutas na feira, escutei o grito do feirante:
-Tangerina, tangerina, olha as mais doces, as mais deliciosas e cheirosas tangerinas.
-Tangerina, tangerina, olha as mais doces, as mais deliciosas e cheirosas tangerinas.
Engraçado, ou perdi a capacidade cheiratória ou o fulano estava querendo me vender gato por lebre.
Lembrei do cheiro de tangerina que invadia os narizes da minha infância, era quase impossível não roubá-las do cesto e ir comê-las escondidas atrás do muro, nos fundos
Lembrei do cheiro de tangerina que invadia os narizes da minha infância, era quase impossível não roubá-las do cesto e ir comê-las escondidas atrás do muro, nos fundos
da casa, esconderijo secreto que a mãe ainda não havia descoberto.
Ela só sentia a rapidez com que o cesto mostrava o fundo.
Fazia uma careta engraçada de ponto de interrogação, enquanto a molecada fazia cara de paisagem.
Aliás, tangerina nada, era mexerica!
Assim a chamávamos, não sei se este era [ou é] o nome certo da fruta
Assim a chamávamos, não sei se este era [ou é] o nome certo da fruta
ou se éramos por demais íntimos dela.
E isso me trouxe uma nostalgia resgatada lá dos idos e passados tão remotos
que já os considerava perdidos no id, que é pra onde eu jogo sempre o que
não quero lembrar mais é nunca!
E me deu uma gana, uma vontade quase incontrolável de voltar à feira toda,
pegar a faca do vendedor de melancias bem ao ladinho das tangerinas,
e picotar aquele homenzinho gritador que oferecia o que não podia vender
E isso me trouxe uma nostalgia resgatada lá dos idos e passados tão remotos
que já os considerava perdidos no id, que é pra onde eu jogo sempre o que
não quero lembrar mais é nunca!
E me deu uma gana, uma vontade quase incontrolável de voltar à feira toda,
pegar a faca do vendedor de melancias bem ao ladinho das tangerinas,
e picotar aquele homenzinho gritador que oferecia o que não podia vender
por pura falta de estoque:
O cheiro bom da minha infância.
segunda-feira, 10 de maio de 2010
ESCATOLOGIA FEMINISTA
Segurou a porta do elevador, deixou a moça entrar primeiro por dois motivos, parecer gentil e olhar a bundinha desta nova vizinha.
Nossa! Não era bundinha.
Era uma senhora protuberância daquelas de fazer a baba escorrer queixo abaixo e santo se desfazer da auréola.
-Oi, seja bem-vinda. Nova por aqui?
E a boa filha de uma mãe nem um sorriso pequeno, de resposta.
Ou sequer agradeceu a segurada da porta.
Cara fechada, em cima do salto, só na pose.
Por um momento ele se sentiu um idiota.
Sorriu amarelo pra pedante e imaginou, só de raiva, ela sentada na privada, prisão de ventre comendo as tripas e ela ali, só nos puns, cara vermelha do esforço inútil, quase explodindo veias e vísceras parede do banheiro a fora.
Só de pensar desatou numa risada de escorrer lágrimas nos olhos, quanto mais tentava parar de rir, mais ria.
Tentou pensamentos de velórios, de batida de carro, avião caindo com amigo dentro. Nada! Estava com riso frouxo, risada descontrolada.
E aí olhou pra ela com lágrimas correndo cara a fora, e viu, surpreso, ela rindo também, pra ele!
Quando desceram no térreo ela colocou ligeirinho, na sua mão, cartão com nome e telefone, deu um apertão e sumiu no saguão.
Ele aprendeu nesse dia uma lição que valeria pro resto da vida:
Mulher não foi feita pra sutilezas e salamaleques.
Gostam de ver, no olhar da gente, o pensamento nojento e impuro
escapando das órbitas e caindo diretamente sobre elas, o escatológico.
São todas umas bizarras.
(Elza Fraga)
terça-feira, 4 de maio de 2010
CARTA CONFESSIONAL PRA NUNCA SER REMETIDA
Cansei!... Fui até a esquina, me procura por lá!
Dei queixa ao bispo, ‘sartei’ de banda!
Não acredito em mais uma, umazinha, promessa das pequenas.
Você mente em tom maior.
Melhor,
você mente sementes que germinam em mim,
me fazem fértil.
Virei árvore, parada, grande, frondosa, se deite aqui na minha
rama, arme a rede, se deleite; mas não deite mais esta falação
de doido pra cima da minha alma.
Ela nem agüenta mais e clama:
Calma, vai devagar cantar em outra freguesia.
Que mania infeliz é esta de me tirar de idiota confessa
quando eu sou apenas poeta!
(Elza Fraga)
quinta-feira, 29 de abril de 2010
O AUSENTE
A chuva na janela, mais a falta de sinais seus,
mais o meu descontrole formaram a soma imperfeita.
E foi assim que me decidi manchete pro jornal de amanhã:
Encontrada morta, nenhum sinal de violência,
só de ausência.
(Elza Fraga)
mais o meu descontrole formaram a soma imperfeita.
E foi assim que me decidi manchete pro jornal de amanhã:
Encontrada morta, nenhum sinal de violência,
só de ausência.
(Elza Fraga)
quarta-feira, 28 de abril de 2010
A TRAIÇÃO
Sabia que ali tinha coisa! O cheiro estava no ar, era só respirar, nem precisava ser fundo, que sentia algo entre o sujo e o fedido.
Fingiu que não percebeu, assobiou, limpou a gaiola do passarinho, pegou o jornal no quintal, colocou na mesa. Tudo igual, todo o dia igual, rotina!
Tomou seu café, fraco como água de calcinha, não reclamou, se comportou como o cavalheiro que nunca tinha sido.
Esperou ela sair do quarto como fazia sempre, depois era a vez dele.
Banho, troca de roupa e batente, ganhar o pão da vida.
Geralmente quando ele saia ela já tinha entrado no ônibus,
casa da madame, faxina, explicava ela.
Mas dinheiro que era bom, vindo dela, ele nunca tinha visto a cor.
Lugar tão secreto, nem o telefone nunca deixara para uma emergência.
Ela ia segura, sabia que ele ficava preso em suas arrumações,
tinha horário a cumprir.
Esse dia não. Foi só ela bater a porta e ele sair correndo do banheiro, pegar a câmera.
Afinal ia querer registro.
Saiu pelos fundos, se esgueirando entre varal de roupas, balanço de criança,
carrinho de mão enferrujado.
E lá ia ela no seu andarzinho de passarinha tonta, olhava pros lados como se
desconfiasse de alguma coisa.
E ele, a sombra, seguia cada passo a distância segura.
Passou o ponto do ônibus, ela prosseguiu.
Passou a igreja, a pracinha, o centro comercial, as casas foram rareando
e ela seguindo em frente.
Acabou a rua de asfalto.
Agora era um caminho de terra, orlado de flores miúdas, muitas árvores,
cheiro bom de verde.
Chegou num riacho, ora bolas, nem ele sabia daquele riachinho gramado
nas laterais. Lugar bom pra se fazer sacanagem!
Mas sacanear logo ele já era demais, pensou.
Agora pego ela e o desgraçado e acabo com a raça dos dois.
Ela calmamente, como se pressentisse público, abriu vagarosamente,
um a um, os botões do vestido. Deixou escorregar pelos ombros.
Desceu as alças do sutiã, rodou o fecho pra frente, soltou e deixou cair,
descuidado no capim. E os mamilos, tão sonegados pra ele,
descaradamente a mostra, endurecidos por pensamentos pervertidos que colocava
um riso de safadeza na cara inteira.
E ele, como um gato na folhagem, quase esquecendo a ira
e atacando aquela carne ali, pertinho, oferecida.
Escutou passos, se encolheu mais ainda, não poderia estragar tudo agora,
melhor ver, ter certeza.
E teve!
Os dois corpos se encontraram, ela no afã de desvestir o outro corpo,
pressa e sofreguidão.
E ele com os olhos arregalados, estatelado, preso ao chão.
Mistura de susto e riso. E alívio!
Mas e agora?
Como poderia mostrar pro irmão as fotos das duas esposas,
a sua e a dele, se roçando no capim?
(Elza Fraga)
Fingiu que não percebeu, assobiou, limpou a gaiola do passarinho, pegou o jornal no quintal, colocou na mesa. Tudo igual, todo o dia igual, rotina!
Tomou seu café, fraco como água de calcinha, não reclamou, se comportou como o cavalheiro que nunca tinha sido.
Esperou ela sair do quarto como fazia sempre, depois era a vez dele.
Banho, troca de roupa e batente, ganhar o pão da vida.
Geralmente quando ele saia ela já tinha entrado no ônibus,
casa da madame, faxina, explicava ela.
Mas dinheiro que era bom, vindo dela, ele nunca tinha visto a cor.
Lugar tão secreto, nem o telefone nunca deixara para uma emergência.
Ela ia segura, sabia que ele ficava preso em suas arrumações,
tinha horário a cumprir.
Esse dia não. Foi só ela bater a porta e ele sair correndo do banheiro, pegar a câmera.
Afinal ia querer registro.
Saiu pelos fundos, se esgueirando entre varal de roupas, balanço de criança,
carrinho de mão enferrujado.
E lá ia ela no seu andarzinho de passarinha tonta, olhava pros lados como se
desconfiasse de alguma coisa.
E ele, a sombra, seguia cada passo a distância segura.
Passou o ponto do ônibus, ela prosseguiu.
Passou a igreja, a pracinha, o centro comercial, as casas foram rareando
e ela seguindo em frente.
Acabou a rua de asfalto.
Agora era um caminho de terra, orlado de flores miúdas, muitas árvores,
cheiro bom de verde.
Chegou num riacho, ora bolas, nem ele sabia daquele riachinho gramado
nas laterais. Lugar bom pra se fazer sacanagem!
Mas sacanear logo ele já era demais, pensou.
Agora pego ela e o desgraçado e acabo com a raça dos dois.
Ela calmamente, como se pressentisse público, abriu vagarosamente,
um a um, os botões do vestido. Deixou escorregar pelos ombros.
Desceu as alças do sutiã, rodou o fecho pra frente, soltou e deixou cair,
descuidado no capim. E os mamilos, tão sonegados pra ele,
descaradamente a mostra, endurecidos por pensamentos pervertidos que colocava
um riso de safadeza na cara inteira.
E ele, como um gato na folhagem, quase esquecendo a ira
e atacando aquela carne ali, pertinho, oferecida.
Escutou passos, se encolheu mais ainda, não poderia estragar tudo agora,
melhor ver, ter certeza.
E teve!
Os dois corpos se encontraram, ela no afã de desvestir o outro corpo,
pressa e sofreguidão.
E ele com os olhos arregalados, estatelado, preso ao chão.
Mistura de susto e riso. E alívio!
Mas e agora?
Como poderia mostrar pro irmão as fotos das duas esposas,
a sua e a dele, se roçando no capim?
(Elza Fraga)
A CHAVE DA MENTE
Ele pensou, pensou, pensou até conseguir desconectar dentro da
cabeça alguma peça importante.
Pronto, conseguira desligar as palavras, marteladores de cérebros.
O mal e o bem que habitavam juntos anteriormente, numa boa,
mudaram de endereço.
Ele nem sabia pra onde. Aliás, ele não sabia mais de nada.
Não sabia se existiam nomes, endereços telefones.
Daqui pra frente só novidades, mas, esperto, ele escaparia delas,
não cairia em armadilhas.
E foi tão fácil, foi só atarraxar aquele sorriso bobo na cara assim que
desalojou, pra sempre as palavras.
Este era o segredo, a fechadura da mente.
Nada de chave, nada de cadeado, nunca mais que se abriria.
Sem, rumo, sem prumo, sem dores, só cores e cheiros.
Pena que se esqueceu de anotar a fórmula antes do final do processo,
me condenando a ficar com este zumbido duplo de pensamentos
desencontrados,
sem nunca saber ao certo quando são os meus,
quando são os dele.
(Elza Fraga)
cabeça alguma peça importante.
Pronto, conseguira desligar as palavras, marteladores de cérebros.
O mal e o bem que habitavam juntos anteriormente, numa boa,
mudaram de endereço.
Ele nem sabia pra onde. Aliás, ele não sabia mais de nada.
Não sabia se existiam nomes, endereços telefones.
Daqui pra frente só novidades, mas, esperto, ele escaparia delas,
não cairia em armadilhas.
E foi tão fácil, foi só atarraxar aquele sorriso bobo na cara assim que
desalojou, pra sempre as palavras.
Este era o segredo, a fechadura da mente.
Nada de chave, nada de cadeado, nunca mais que se abriria.
Sem, rumo, sem prumo, sem dores, só cores e cheiros.
Pena que se esqueceu de anotar a fórmula antes do final do processo,
me condenando a ficar com este zumbido duplo de pensamentos
desencontrados,
sem nunca saber ao certo quando são os meus,
quando são os dele.
(Elza Fraga)
segunda-feira, 26 de abril de 2010
PORTARIA DE VIDA
Retrato do Dr. Gachet, de Van Gogh
Achou que Deus estava querendo brincar com ele.
Achou não, teve certeza quando ela olhou por cima do ombro,
arriscando um torcicolo, só pra dar uma piscadela.
Pronto. Fechou com chave de ouro.
Este dia era dele.
Não andou mais, correu, pulou, saltou danças imaginárias,
inventou passos coreografados.
Já fazia tanto tempo que ele secava aquela morena e ela nem aí.
Nem um sorriso, um oi de má vontade, uma olhadinha pequena que fosse.
Só a soberba, a pose, o desdém.
A segurança de se saber mais que ele em tudo.
Mulher formada, não sabia bem em que, mas formada em faculdade!
E ele, que mal rabiscava o nome, estava levando pra portaria,
onde sonhava mais que trabalhava, uma piscadela de olho,
e da morena formada!
Este formada era muito importante pra ele, mais que pra ela, talvez.
Resolveu se dar ao luxo de um cafezinho no bar da esquina,
pertinho do trabalho, nem ia se atrasar.
Entrou com pose de macho satisfeito com a vida.
" Bota aí um café, e hoje quero com adoçante, falô?"
Nem pensar mais em engordar, sua cabeça já fazia planos
de exercícios, ginástica, academia!
Foi quando escutou a conversa de duas moradoras do prédio,
bem atrás dele:
-Será que ela pagou a aposta que perdeu da gente?
E a outra
-Claro, a esta altura o idiota do Zé já deve ter levado sua piscadela
pra sonhar na portaria.
A primeira, mais maldosa:
- Pro banheiro, querida, pro banheiro!
(Elza Fraga)
sábado, 24 de abril de 2010
A TROCA
Era a milésima tentativa, agora a carta tinha que sair, de um jeito ou de outro.
Querida.
Não, melhor tirar o querida.
Amiga.
Também não. Ficaria impessoal e vago, ele transava com ela toda
terça já fazia tanto tempo que poderia parecer zombaria.
Quem sabe começar direto e ir logo ao ponto?
Respirou, tomou coragem e rabiscou com aquela sua letra miúda e torta:
"Terça feira que vem não precisa vir. Troquei o miolo da fechadura e
entreguei a nova chave a sua irmã. Não é nada com você, é comigo,
Sou um canalha, nem mereço perdão.
Você vai encontrar quem mereça alguém assim, tão devotada”
Sabia que era chavão, sabia que era mentira e sabia que ela também sabia.
Mas se livrara da árdua tarefa.
Nunca imaginara ser tão difícil dar um pé no traseiro de alguém
Mas fazer o que se a irmã tinha a bundinha mais dura que ele já vira
em toda a sua vida?
Não era homem de desperdícios!
Querida.
Não, melhor tirar o querida.
Amiga.
Também não. Ficaria impessoal e vago, ele transava com ela toda
terça já fazia tanto tempo que poderia parecer zombaria.
Quem sabe começar direto e ir logo ao ponto?
Respirou, tomou coragem e rabiscou com aquela sua letra miúda e torta:
"Terça feira que vem não precisa vir. Troquei o miolo da fechadura e
entreguei a nova chave a sua irmã. Não é nada com você, é comigo,
Sou um canalha, nem mereço perdão.
Você vai encontrar quem mereça alguém assim, tão devotada”
Sabia que era chavão, sabia que era mentira e sabia que ela também sabia.
Mas se livrara da árdua tarefa.
Nunca imaginara ser tão difícil dar um pé no traseiro de alguém
Mas fazer o que se a irmã tinha a bundinha mais dura que ele já vira
em toda a sua vida?
Não era homem de desperdícios!
A CARRANCUDA DO TERCEIRO ANDAR
Acordou do avesso, dava pra se ver de longe pela cara amassada.
Perdeu a hora, perdeu o ônibus, perdeu o café da manhã farto
servido pela morena, empregada da carrancuda do terceiro andar.
Ah, se um dia a velhota sonhasse o que a empregada lhe oferecia por entre
bolos e biscoitos.
Aqueles seios fartos debruçados no balcão, quase saltando fora do decote,
fazia seu dia suportável.
Mas logo naquele dia a megera esquecera de acertar o despertador.
E aí dele se cobrasse alguma coisa, era um desparrame de lágrimas,
de eu não sirvo pra nada, sou uma inútil nesta casa, pra você era melhor
eu já ter morrido...
Desta ultima parte ele gostava e começava a imaginar a víbora dura,
no caixão, e ele fazendo as honras da casa, servindo cafezinho.
Claro que com a ajuda da empregada da carrancuda do terceiro andar!
Sonhar com este dia fazia que as horas passassem mais depressa.
Num repente o sonho ficou amargo, uma sensação de náusea, uma dor
esquisita no ombro. Nem deu tempo de dar um ai. Caiu ali mesmo.
A noitinha, lá estava a megera, fungando em cima do caixão que não
era pra ele, servindo o cafezinho que era pra ele servir,
com a ajuda da empregada da carrancuda do terceiro andar.
Perdeu a hora, perdeu o ônibus, perdeu o café da manhã farto
servido pela morena, empregada da carrancuda do terceiro andar.
Ah, se um dia a velhota sonhasse o que a empregada lhe oferecia por entre
bolos e biscoitos.
Aqueles seios fartos debruçados no balcão, quase saltando fora do decote,
fazia seu dia suportável.
Mas logo naquele dia a megera esquecera de acertar o despertador.
E aí dele se cobrasse alguma coisa, era um desparrame de lágrimas,
de eu não sirvo pra nada, sou uma inútil nesta casa, pra você era melhor
eu já ter morrido...
Desta ultima parte ele gostava e começava a imaginar a víbora dura,
no caixão, e ele fazendo as honras da casa, servindo cafezinho.
Claro que com a ajuda da empregada da carrancuda do terceiro andar!
Sonhar com este dia fazia que as horas passassem mais depressa.
Num repente o sonho ficou amargo, uma sensação de náusea, uma dor
esquisita no ombro. Nem deu tempo de dar um ai. Caiu ali mesmo.
A noitinha, lá estava a megera, fungando em cima do caixão que não
era pra ele, servindo o cafezinho que era pra ele servir,
com a ajuda da empregada da carrancuda do terceiro andar.
LUA CHEIA
Abriu a porta pra lua, deixou que ela se refletisse por inteira na parede mal caiada,
sentou-se a mesa, a solidão doendo como faca enfiada e girada dentro do peito.
Era a única companhia de todas estas noites.
Pena que tão calada, só escutava suas queixas.
Puxou os dois pratos, um pedaço de pão dentro de cada.
Deixou que a lua se servisse primeiro e ela ali, só olhando, muda.
Pensou lá com seus botões que a lua estava sem fome esta noite.
E foi só então que ele percebeu o tamanho da sua distração,
era lua cheia!
(Elza Fraga)
sentou-se a mesa, a solidão doendo como faca enfiada e girada dentro do peito.
Era a única companhia de todas estas noites.
Pena que tão calada, só escutava suas queixas.
Puxou os dois pratos, um pedaço de pão dentro de cada.
Deixou que a lua se servisse primeiro e ela ali, só olhando, muda.
Pensou lá com seus botões que a lua estava sem fome esta noite.
E foi só então que ele percebeu o tamanho da sua distração,
era lua cheia!
(Elza Fraga)
O ASSALTADO
Andava torto, encurvado, sentia o morto que estava querendo saltar boca a fora, o gosto de sangue e vômito, a lucidez cada vez mais longe, as idéias cada vez mais embaralhando e pesando, empurrando a cabeça pra mais perto do chão.
Nem sabia de onde havia partido o primeiro soco, nem sabia porque logo ele escolhido entre tantos outros. Agora não tinha mais tempo pra se preocupar com isso. Precisava de ajuda. Alguém pra segurar sua alma no colo e embalar cantando as antigas cantigas da mãe que se fora quando ele ainda precisava tanto.
E aí, longe, veio se aproximando o primeiro acorde:
-Dorme criança que a dor não alcança quem o sono acalanta.
Mais alto um pouquinho:
-Dorme criança que a dor não alcança quem o sono acalanta.
Agora cada vez mais perto, cada vez mais perto,
até que a viu, abriu os braços e caiu.
Dormiu enquanto a canção continuava, pro resto da eternidade,
enfim a paz.
(Elza Fraga)
Nem sabia de onde havia partido o primeiro soco, nem sabia porque logo ele escolhido entre tantos outros. Agora não tinha mais tempo pra se preocupar com isso. Precisava de ajuda. Alguém pra segurar sua alma no colo e embalar cantando as antigas cantigas da mãe que se fora quando ele ainda precisava tanto.
E aí, longe, veio se aproximando o primeiro acorde:
-Dorme criança que a dor não alcança quem o sono acalanta.
Mais alto um pouquinho:
-Dorme criança que a dor não alcança quem o sono acalanta.
Agora cada vez mais perto, cada vez mais perto,
até que a viu, abriu os braços e caiu.
Dormiu enquanto a canção continuava, pro resto da eternidade,
enfim a paz.
(Elza Fraga)
terça-feira, 20 de abril de 2010
A NOITE EM QUE O MEDO EMIGROU
(Prosa poética)
Ofendia, humilhava, dava só o que sobrava
e porrada
e ela vivia dia a dia dos sobejos.
Até que a ousadia a rebelara, se ajoelhou pediu um beijo
um simples beijo
o chute veio insuspeitado pegou no queixo
dor e estrago
inaugurado, sem pompa e gala, novo defeito na cara
já tão marcada, tão amansada no medo
e num levante inesperado de tanta vida esgarçada,
desgraçada, esfiapada, vê a garrafa [cheia].
Bate num rítmo ligeiro bóim bóim bóim bóim
até arrebentar a veia e o sangue inundar o olho surpreso
até acabar a dor da raiva da rejeição de todo o dano do desengano
de tanto ano que ficou pra sempre perdido no tempo
até acabar todo o ar que preenchera aquele pulmão
desumano
agora o vento
levara o medo
E lavara as mãos.
(Elza Fraga)
Ofendia, humilhava, dava só o que sobrava
e porrada
e ela vivia dia a dia dos sobejos.
Até que a ousadia a rebelara, se ajoelhou pediu um beijo
um simples beijo
o chute veio insuspeitado pegou no queixo
dor e estrago
inaugurado, sem pompa e gala, novo defeito na cara
já tão marcada, tão amansada no medo
e num levante inesperado de tanta vida esgarçada,
desgraçada, esfiapada, vê a garrafa [cheia].
Bate num rítmo ligeiro bóim bóim bóim bóim
até arrebentar a veia e o sangue inundar o olho surpreso
até acabar a dor da raiva da rejeição de todo o dano do desengano
de tanto ano que ficou pra sempre perdido no tempo
até acabar todo o ar que preenchera aquele pulmão
desumano
agora o vento
levara o medo
E lavara as mãos.
(Elza Fraga)
sábado, 17 de abril de 2010
CONFERIDA
Vai lá se saber o que ela queria, morava no meio daquela calçada
fazia décadas, não sabíamos como e quando chegara,
já fazia parte da paisagem.
Resmungava o dia todo. Uma ou outra coisa a gente até entendia,
mas a maioria era uma ruminação de palavras feias.
Se a gente olhava ela corria brandindo um porrete que mais
parecia a extensão da sua mão.
Se a gente passava de cabeça baixa ela xingava mais alto, pra provocar.
Berrava até a gente sumir na poeira.
Até o dia em que passamos, em bando, e lá estava, sentada, calada,
sem o porrete, sem mais nada sobre si a não ser a pele que Deus lhe deu.
Ainda comentamos:
"A doidinha enloucou de vez"!
Olhava pro céu como se desvendasse o milagre da vida.
Bem no final da tardinha voltamos pra conferir,
nesta curiosidade indecente de seres humanos,
e lá estava, dura como o porrete que lhe acompanhou
boa parte da vida.
E conferimos:
Ela desvendara o milagre da morte
(Elza Fraga)
sexta-feira, 16 de abril de 2010
VIDA QUE SEGUE
.
Seguiu o cortejo, lembrou da conta atrasada e com esse truque conseguiu umas lágrimas cara a baixo.
Parou bem na boca do buraco, olhou pra dentro, escuro;
a tarde já vinha caindo nas poucas cabeças ali amontoadas.
Cada uma chorando seus motivos próprios.
Um quase meio sorriso ia se abrindo, se conteve.
Precisava aprender a controlar os pensamentos felizes.
Pensou na mãe, morta tão nova, sofreu mais que burro de carga!
Enquanto divagava procurando uma cara mais condizente com o ato perdeu o principal.
Quando se deu conta já estavam lacrando com uma placa de cimento a última morada do canalha...
Acabou, agora era só passar no advogado pra saber o que lhe restara deste defuntoso,
meter a mão no seguro, na pensão e ir sustentar direito o coitadinho do Amarildo,
que este, coitado, sempre viveu dos restos que ela conseguia surrupiar.
Avisar que acabaram-se as migalhas!
Este sim, valia a vida!
(Elza Fraga)
Seguiu o cortejo, lembrou da conta atrasada e com esse truque conseguiu umas lágrimas cara a baixo.
Parou bem na boca do buraco, olhou pra dentro, escuro;
a tarde já vinha caindo nas poucas cabeças ali amontoadas.
Cada uma chorando seus motivos próprios.
Um quase meio sorriso ia se abrindo, se conteve.
Precisava aprender a controlar os pensamentos felizes.
Pensou na mãe, morta tão nova, sofreu mais que burro de carga!
Enquanto divagava procurando uma cara mais condizente com o ato perdeu o principal.
Quando se deu conta já estavam lacrando com uma placa de cimento a última morada do canalha...
Acabou, agora era só passar no advogado pra saber o que lhe restara deste defuntoso,
meter a mão no seguro, na pensão e ir sustentar direito o coitadinho do Amarildo,
que este, coitado, sempre viveu dos restos que ela conseguia surrupiar.
Avisar que acabaram-se as migalhas!
Este sim, valia a vida!
(Elza Fraga)
O ANUÁRIO
.
"Tira a roupa, agora!"
Ela tirou.
"Deita na cama e me espera quietinha, já volto."
Era primavera, sentia até o cheiro das flores.
Um calor insuportável se fez, será que chegara o verão? Até que era bom estar nua. Mas veio , mansinho, o outono. ela escutou o zuuuuuuum do vento lá fora, jogando as folhas ao chão, passou um arrepio gostoso pelo corpo.
E aí começou a entrar um frio, de principio medroso, mas a vendo inerte, deitada sem proteção, ficou corajoso, começou a soprar cada vez mais forte seu bafo gélido. Este ano vai ter geada, pensou ela. Depois disso a única coisa que lhe passou pela cabeça foi um pensamento vago e esfumaçado de como seria a cara dele se voltasse agora.
e aí fechou os olhos e, finalmente, dormiu.
(Elza Fraga)
"Tira a roupa, agora!"
Ela tirou.
"Deita na cama e me espera quietinha, já volto."
Era primavera, sentia até o cheiro das flores.
Um calor insuportável se fez, será que chegara o verão? Até que era bom estar nua. Mas veio , mansinho, o outono. ela escutou o zuuuuuuum do vento lá fora, jogando as folhas ao chão, passou um arrepio gostoso pelo corpo.
E aí começou a entrar um frio, de principio medroso, mas a vendo inerte, deitada sem proteção, ficou corajoso, começou a soprar cada vez mais forte seu bafo gélido. Este ano vai ter geada, pensou ela. Depois disso a única coisa que lhe passou pela cabeça foi um pensamento vago e esfumaçado de como seria a cara dele se voltasse agora.
e aí fechou os olhos e, finalmente, dormiu.
(Elza Fraga)
JOGO QUE SE JOGA SÓ
Os Miseráveis -Victor Hugo
. Éramos tres: Eu, ela e o cigarro embolando a fumaça no ar, formando figuras.
Num repente viramos dois, ela cansou de olhar o vazio tentando adivinhar
que desenho novo a fumaça desenhara, acordei com a ausência. Acendi
um cigarro. A brincadeira perdera o gosto. Virou jogo que se joga só.
Deitei o cigarro ao chão, pisei até a brasa apagar o meu pé nu. Virei um.
(Elza Fraga)
quinta-feira, 15 de abril de 2010
DÚVIDAS
Imagem do acervo da poeta Liria Porto
Mão no queixo. Sentada olhando a tela do computador sem ver.
Pensamento em casa, enquanto o trabalho a reclamava e ela
nem aí, matutava, matutava...
O que andaria ele fazendo neste dia de folga sem ela pra vigiar
seus passos?
A resposta, num flash, estourou dentro da sua cabeça:
Comendo a empregada.
Levantou num ânimo de morrer ou matar e lentamente
fez o caminho pra casa.
(Elza Fraga)
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
E O SOL NEM NASCERA
....
Hum hum, respondeu sem nem escutar.
Atras da mesa, jornal enfiado na cara e cara enfiada no seu próprio mundo
que este daqui não dá mais pra cristão nenhum, com o mínimo de bom sendo, aguentar de cara limpa.
E as seis da matina quase todas as caras estão limpas.
Muito cedo pro anestésico em forma de cachaça ou similares.
Encaraminholava estas idéias tortas enquanto o olho corria as manchetes, só desgraças!
Chuva, barraco desabando deixando criança morta e corpo não achado, ventania
destelhando cidades inteira...
Será o Benedito ou será o fim do mundo, o Apocalipse?
A mente, que nenhuma é obediente, vagava sem rumo até lembrar das pernas
de Odaléia.
Aí se perdeu nos detalhes e aquietou o pensamento só nelas.
Roliças, mesmo sem gorduras excessivas eram um desparrame de carnes
que sabia, por instinto, cheirosas.
Quiça um dia perder a cabeça e a lingua entre aquelas coxas, e nunca mais achar o caminho de volta.
Que voltar pra esta casa, pra esta mesma mulher de quinze anos atras, em versão piorada, tirava a sanidade e o tesão de viver.
Mas Odaléia não.
Era a novidade, o susto de ser pego com o olho gordo em cima das curvas perigosas.
Esta era carne fresca, exibidamente despudorada com todos na repartição, menos com ele.
E por causa desta indiferença se sentia menor, menos homem, incapaz de um ato de coragem.
E mais raiva sentia da esquisita sentada a sua frente, que insistia em lhe dirigir a palavra e tinha urgência de respostas, respostas que ele não queria dar, não podia dar, não as tinha.
Vontade de abrir a porta do quarto, pegar uns poucos panos de bunda, e sair assobiando, passarinho solto, sem casa, sem pouso, sem culpa, sem responsabilidade em sustentar aquela vaca usurpadora de espaços indevidos.
Talvez aí Odaléia o olhasse com um misto de ternura e piedade, não era bem o que ele queria, mas já era um começo, uma luzinha acesa no final do túnel.
E o tempo lá fora correndo que nem cavalo solto, indomado, em campina aberta.
E ele aqui preso, pássaro cativo desta vida de merda, gaiola que construiu com a própria mão e esforço!
Só ele poderia desconstruir.
A mulher, muda agora, espionando cada piscadela sua, cada mudança de fisionomia, cada meio sorriso ou cada ricto de amargor, pelas beiradas que o jornal deixava sem cobertura.
Ele sabia que ela sabia que ele nem pensava ou se preocupava com ela e sua vidinha de lavar, passar, cozinhar, cuidar de cachorro e fofocar com a vizinhança do quanto ele era estranho.
E pensar em mais esta lhe doeu uma raiva vinda do fundo do estômago,
os intestinos se entortaram numa revolução besta, subiu a boca aquele gosto de fel
que o apavorava e dava medo. Virava outro nestas horas.
Pegou a talha de queijo, a faca afiada, levantou num movimento rápido e insuspeitado e cravou, fundo, naquele coração sentado na cadeira em frente.
Foi só um grito de susto, um ai, meio que de queixa, de mágoa, de tristeza do que poderia ser e nunca foi.
Uma lamúria vazia contra o nada que tinha sido toda uma vida.
Mal sabia que ia criar fama, fazer carreira nos noticiários logo, logo.
Assim que uma das vizinhas tivesse carência de alguém pra contar a última fofoca.
E ele já saboreava o prazer de ter fornecido a fofoca inesperada.
Limpou a faca na toalha da mesa, pulou por cima do empecilho caido ao chão, sem nem um olhar de curiosidade, remorso ou respeito.
Abriu a porta pra rua
Enfim a liberdade!
Hum hum, respondeu sem nem escutar.
Atras da mesa, jornal enfiado na cara e cara enfiada no seu próprio mundo
que este daqui não dá mais pra cristão nenhum, com o mínimo de bom sendo, aguentar de cara limpa.
E as seis da matina quase todas as caras estão limpas.
Muito cedo pro anestésico em forma de cachaça ou similares.
Encaraminholava estas idéias tortas enquanto o olho corria as manchetes, só desgraças!
Chuva, barraco desabando deixando criança morta e corpo não achado, ventania
destelhando cidades inteira...
Será o Benedito ou será o fim do mundo, o Apocalipse?
A mente, que nenhuma é obediente, vagava sem rumo até lembrar das pernas
de Odaléia.
Aí se perdeu nos detalhes e aquietou o pensamento só nelas.
Roliças, mesmo sem gorduras excessivas eram um desparrame de carnes
que sabia, por instinto, cheirosas.
Quiça um dia perder a cabeça e a lingua entre aquelas coxas, e nunca mais achar o caminho de volta.
Que voltar pra esta casa, pra esta mesma mulher de quinze anos atras, em versão piorada, tirava a sanidade e o tesão de viver.
Mas Odaléia não.
Era a novidade, o susto de ser pego com o olho gordo em cima das curvas perigosas.
Esta era carne fresca, exibidamente despudorada com todos na repartição, menos com ele.
E por causa desta indiferença se sentia menor, menos homem, incapaz de um ato de coragem.
E mais raiva sentia da esquisita sentada a sua frente, que insistia em lhe dirigir a palavra e tinha urgência de respostas, respostas que ele não queria dar, não podia dar, não as tinha.
Vontade de abrir a porta do quarto, pegar uns poucos panos de bunda, e sair assobiando, passarinho solto, sem casa, sem pouso, sem culpa, sem responsabilidade em sustentar aquela vaca usurpadora de espaços indevidos.
Talvez aí Odaléia o olhasse com um misto de ternura e piedade, não era bem o que ele queria, mas já era um começo, uma luzinha acesa no final do túnel.
E o tempo lá fora correndo que nem cavalo solto, indomado, em campina aberta.
E ele aqui preso, pássaro cativo desta vida de merda, gaiola que construiu com a própria mão e esforço!
Só ele poderia desconstruir.
A mulher, muda agora, espionando cada piscadela sua, cada mudança de fisionomia, cada meio sorriso ou cada ricto de amargor, pelas beiradas que o jornal deixava sem cobertura.
Ele sabia que ela sabia que ele nem pensava ou se preocupava com ela e sua vidinha de lavar, passar, cozinhar, cuidar de cachorro e fofocar com a vizinhança do quanto ele era estranho.
E pensar em mais esta lhe doeu uma raiva vinda do fundo do estômago,
os intestinos se entortaram numa revolução besta, subiu a boca aquele gosto de fel
que o apavorava e dava medo. Virava outro nestas horas.
Pegou a talha de queijo, a faca afiada, levantou num movimento rápido e insuspeitado e cravou, fundo, naquele coração sentado na cadeira em frente.
Foi só um grito de susto, um ai, meio que de queixa, de mágoa, de tristeza do que poderia ser e nunca foi.
Uma lamúria vazia contra o nada que tinha sido toda uma vida.
Mal sabia que ia criar fama, fazer carreira nos noticiários logo, logo.
Assim que uma das vizinhas tivesse carência de alguém pra contar a última fofoca.
E ele já saboreava o prazer de ter fornecido a fofoca inesperada.
Limpou a faca na toalha da mesa, pulou por cima do empecilho caido ao chão, sem nem um olhar de curiosidade, remorso ou respeito.
Abriu a porta pra rua
Enfim a liberdade!
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
RUMO AO SOL
.
Ela nascera com aquela função, pra ela fora preparada.
Todas as mulheres que a antecederam na família, vieram
com a mesma :
Essência e carne de dona de casa.
Profissão? Do lar!
Naquele dia, nunca soube porque, acordou de um jeito virado,
do avesso, parecia outra.
Estava esquisita, quente como febre, uma zonzeira na cabeça,
um olhar de ver tudo nublado e escurecido...
Olhou a cama por fazer, deu as costas.
Abriu a porta do banheiro, escovou os dentes mecanicamente,
tomou uma chuveirada pra tentar voltar a normalidade,
seu próprio resgate.
Mas qual... nada! Parecia que nascera dentro dela, durante a noite, algum ser estranho e ocupara o lugar que nem era seu, posto que nem sabia mais quem era.
Saiu pelos corredores a abrir portas vazias de vida.
Achou uma que escondia estranhos adormecidos,
um homem entre duas crianças morenas...
Se ela nem sabia quem era, como poderia saber que trio era aquele?...
Deu de ombros, como se sacudisse de si qualquer envolvimento e,
vagarosamente, cerrou a porta.
Desceu as escadas e caiu numa cozinha branca, asséptica.
Alguma coisa dentro dela lembrou, vagamente, de feituras
de café, cheiro bom de pão na chapa... Desistiu.
Olhou pela tela da janela um sol nascente avermelhando o leste.
Saiu, seguiu em direção ao sol, sentia sede de luz, garganta
seca e ardida.
Os pés descalços nem lhe doíam, doía era a alma, insatisfeita
moradora de um corpo errado.
Não tinha noção de culpa, de certo, errado, permitido, negado...
Só tinha uma certeza: Queria chegar ao sol de qualquer maneira,
antes dele se esconder e adormecer...
E assim, caminhando e subindo, lá ia atrás da luz para clarear
a sua insipidez.
Enquanto isso, numa casa de subúrbio, um homem e duas crianças
acordavam mudos de susto e medo de terem que se bastar de vez.
(Elza Fraga)
Ela nascera com aquela função, pra ela fora preparada.
Todas as mulheres que a antecederam na família, vieram
com a mesma :
Essência e carne de dona de casa.
Profissão? Do lar!
Naquele dia, nunca soube porque, acordou de um jeito virado,
do avesso, parecia outra.
Estava esquisita, quente como febre, uma zonzeira na cabeça,
um olhar de ver tudo nublado e escurecido...
Olhou a cama por fazer, deu as costas.
Abriu a porta do banheiro, escovou os dentes mecanicamente,
tomou uma chuveirada pra tentar voltar a normalidade,
seu próprio resgate.
Mas qual... nada! Parecia que nascera dentro dela, durante a noite, algum ser estranho e ocupara o lugar que nem era seu, posto que nem sabia mais quem era.
Saiu pelos corredores a abrir portas vazias de vida.
Achou uma que escondia estranhos adormecidos,
um homem entre duas crianças morenas...
Se ela nem sabia quem era, como poderia saber que trio era aquele?...
Deu de ombros, como se sacudisse de si qualquer envolvimento e,
vagarosamente, cerrou a porta.
Desceu as escadas e caiu numa cozinha branca, asséptica.
Alguma coisa dentro dela lembrou, vagamente, de feituras
de café, cheiro bom de pão na chapa... Desistiu.
Olhou pela tela da janela um sol nascente avermelhando o leste.
Saiu, seguiu em direção ao sol, sentia sede de luz, garganta
seca e ardida.
Os pés descalços nem lhe doíam, doía era a alma, insatisfeita
moradora de um corpo errado.
Não tinha noção de culpa, de certo, errado, permitido, negado...
Só tinha uma certeza: Queria chegar ao sol de qualquer maneira,
antes dele se esconder e adormecer...
E assim, caminhando e subindo, lá ia atrás da luz para clarear
a sua insipidez.
Enquanto isso, numa casa de subúrbio, um homem e duas crianças
acordavam mudos de susto e medo de terem que se bastar de vez.
(Elza Fraga)
O EXÍLIO DA LOUCURA...
.
Estou aqui vivendo neste mundo chamado futuro, cheio de esperança, onde brilha sol durante todo o ano e não existe uma linha limite entre as estações: É sempre primavera. Sol e flores, brisa e cheiros, cio e gozo, riso e canto... Uma terra que só eu conheço, só eu enxergo, só eu habito, só eu sinto as suas montanhas, mares, florestas... Danço todos os dias, o dia todo, com raios de sol, parceiros, por entre jardins encantados de cores. Sinto um pouco a falta da chuva, não nego... Penso em como ficaria linda, molhada, cabelos escorrentes pelos ombros, pingando gotas transparentes de luz. Durmo só pra sonhar com água caindo do céu em cima do meu corpo quente. E, num surpreso estranhamento, sempre acordo com saudades do não vivido! Também sinto falta de quem me dê ordens, coordenadas, brigue comigo pelas madrugadas, me sacuda, me balance, depois me puxe, me beije, me arraste pelas calçadas, me ame pelas beiradas de ruas escuras... Mas com isso nem ouso sonhar, é expressamente proibido pelas regras... Do outro lado da porta que divide os mundos existem os que lêem a alma!
Estou num lugar entre o fim do mundo e a terra do Nada, mas tão atrasado, tão atrasado, que, nele, ainda nem inventaram o amor, o sofrimento e a morte. Acho que é o paraíso, apesar das grades e dos cadeados que me impedem de voltar pro lugar comum, com gosto de sangue, de onde vim originada. A mudança foi definitiva, uma espécie de exílio, mas se fecho os olhos ainda posso ouvir as últimas palavras escutadas, cada vez mais longe, cada vez mais fracas: Vai, atravessa a porta, é pro seu bem... é pro seu bem... é pro seu bem...
...
Seria até verdade, não fosse esta maldita solidão...
.
(Elza Fraga)
Estou aqui vivendo neste mundo chamado futuro, cheio de esperança, onde brilha sol durante todo o ano e não existe uma linha limite entre as estações: É sempre primavera. Sol e flores, brisa e cheiros, cio e gozo, riso e canto... Uma terra que só eu conheço, só eu enxergo, só eu habito, só eu sinto as suas montanhas, mares, florestas... Danço todos os dias, o dia todo, com raios de sol, parceiros, por entre jardins encantados de cores. Sinto um pouco a falta da chuva, não nego... Penso em como ficaria linda, molhada, cabelos escorrentes pelos ombros, pingando gotas transparentes de luz. Durmo só pra sonhar com água caindo do céu em cima do meu corpo quente. E, num surpreso estranhamento, sempre acordo com saudades do não vivido! Também sinto falta de quem me dê ordens, coordenadas, brigue comigo pelas madrugadas, me sacuda, me balance, depois me puxe, me beije, me arraste pelas calçadas, me ame pelas beiradas de ruas escuras... Mas com isso nem ouso sonhar, é expressamente proibido pelas regras... Do outro lado da porta que divide os mundos existem os que lêem a alma!
Estou num lugar entre o fim do mundo e a terra do Nada, mas tão atrasado, tão atrasado, que, nele, ainda nem inventaram o amor, o sofrimento e a morte. Acho que é o paraíso, apesar das grades e dos cadeados que me impedem de voltar pro lugar comum, com gosto de sangue, de onde vim originada. A mudança foi definitiva, uma espécie de exílio, mas se fecho os olhos ainda posso ouvir as últimas palavras escutadas, cada vez mais longe, cada vez mais fracas: Vai, atravessa a porta, é pro seu bem... é pro seu bem... é pro seu bem...
...
Seria até verdade, não fosse esta maldita solidão...
.
(Elza Fraga)
domingo, 17 de maio de 2009
A MOÇA QUE DESCOMIA MENTIRAS
...
Ela foi uma criança criativa, uma adolescente perigosa.
Virou uma adulta mentirosa.
Tinha duas escolhas na vida:
Escrever livros, contando as histórias que inventava da vida
de amigos, parentes, vizinhos e afins, e fazer uso das suas
mentiras próprias; ou virar atriz e viver as mentiras alheias,
sem ter que sair machucando Deus e o mundo e mais um pedaço,
melhor de tudo, sem sentir culpa no cartório.
Talento pouco na arte de escrevedora e de intérprete, e muito pra invencionices oralmente fantasiosas, nem escreveu o livro,
nem virou atriz.
Virou foi uma bulímica da melhor qualidade.
Vomitava as mentiras mal digeridas como quem vomita a
folha de alface do almoço.
Ficou anoréxica a bichinha...
Não lhe parava mais nem uma mentirinha, das pequenas sequer,
no estômago!
E definhava a olhos vistos sem que se pudesse fazer nadica por ela.
Todos se surpreendiam com a rapidez que criava mentiras novas
pra colocar no lugar das vomitadas...
Era a ânsia de prender a vida, que lhe escapava pelas paredes da garganta, nos dedos.
Moribundou jovem, coitada!
Mas continuou a andar por aí, a se encher de ar e de invencionices, sofregamente.
O corpo ainda se locomovia, feio, curvado ao peso das mentiras,
olhos fundos na face cadavérica...
Mais se arrastava do que caminhava, mas ia em frente.
Até que num dia chuvoso uma mentira, das grandes,
se lhe entalou na garganta, não conseguia descer goela abaixo
nem por decreto...
Ficou roxa , perdeu o ar, esverdeou-se, se foi de vez!
Até hoje perguntam de que partiu a tal moça, nessa mania
que o povo tem de achar que todo cadáver tem que ter
causa mortis.
Respondo que morreu de mentira grande demais pra ser engolida.
Sabe que ninguém me acredita?!
(Elza Fraga)
Ela foi uma criança criativa, uma adolescente perigosa.
Virou uma adulta mentirosa.
Tinha duas escolhas na vida:
Escrever livros, contando as histórias que inventava da vida
de amigos, parentes, vizinhos e afins, e fazer uso das suas
mentiras próprias; ou virar atriz e viver as mentiras alheias,
sem ter que sair machucando Deus e o mundo e mais um pedaço,
melhor de tudo, sem sentir culpa no cartório.
Talento pouco na arte de escrevedora e de intérprete, e muito pra invencionices oralmente fantasiosas, nem escreveu o livro,
nem virou atriz.
Virou foi uma bulímica da melhor qualidade.
Vomitava as mentiras mal digeridas como quem vomita a
folha de alface do almoço.
Ficou anoréxica a bichinha...
Não lhe parava mais nem uma mentirinha, das pequenas sequer,
no estômago!
E definhava a olhos vistos sem que se pudesse fazer nadica por ela.
Todos se surpreendiam com a rapidez que criava mentiras novas
pra colocar no lugar das vomitadas...
Era a ânsia de prender a vida, que lhe escapava pelas paredes da garganta, nos dedos.
Moribundou jovem, coitada!
Mas continuou a andar por aí, a se encher de ar e de invencionices, sofregamente.
O corpo ainda se locomovia, feio, curvado ao peso das mentiras,
olhos fundos na face cadavérica...
Mais se arrastava do que caminhava, mas ia em frente.
Até que num dia chuvoso uma mentira, das grandes,
se lhe entalou na garganta, não conseguia descer goela abaixo
nem por decreto...
Ficou roxa , perdeu o ar, esverdeou-se, se foi de vez!
Até hoje perguntam de que partiu a tal moça, nessa mania
que o povo tem de achar que todo cadáver tem que ter
causa mortis.
Respondo que morreu de mentira grande demais pra ser engolida.
Sabe que ninguém me acredita?!
(Elza Fraga)
Assinar:
Postagens (Atom)



























