sábado, 19 de março de 2011

O VAZIO

...
Andei, pé ante pé, vagarosamente, arrastadamente.
Sentei a beira da cama, desfiz o nó do cabelo, deixei que caísse,
escorridamente, maciamente, sobre as costas nuas.
Senti com os dedos a maciez do próprio rosto, contornei a curva
do queixo, desci ombros e seios no contato morno e pegajoso, mistura
de banho, hidratante e perfume.
Sólida figura no espelho. Real e triste. Desarmada, desamada, solitária,
apesar do macho a ocupar grande parte do leito.
Pensei com meus botões: homens grandes não são bons. Nem os pequenos
e nem os médios, me respondeu a razão que andava ausente nestes dias de
frio e volúpia.
Voltei a excursionar corpo afora, buscando achar onde estava a sanidade se
Escondendo.
Em que prega de pele, em que fio, em que pêlo.
Nada, a não ser a culpa do pecado, para me responder, aumentando a sensação
de vazio.
Adormeci no fim da madrugada, quase morte, quase sono,
pra acordar pra mais um dia de vazio intenso.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

NO FUNDO D'UM OLHO SECO


http://www.livropronto.com.br/produtos_descricao.asp?lang=pt_BR&codigo_produto=385






 




Enfim o livro parido, obrigada a todos que ajudaram com apoio, amor, incentivo...
Grata por toda a energia  positiva enviada para que eu pudesse ter forças e superar os obstáculos.
Bitokitas de toda a Luz!

Elza Fraga

quarta-feira, 30 de junho de 2010

A HORA DO ENTENDIMENTO

 ...
Ele não mais a atenderia. Ela sabia com uma convicção dolorida e estranha.

Passara em revista todos os seus últimos atos atrás do que poderia ter gerado aquele desprezo, aquele abandono, aquele tom mordaz e frio da conversa derradeira.
Telefonar seria inútil, havia a tecnologia batizada de bina, invenção humana para se atender apenas
os que interessam por um motivo ou outro.
A mola que move o homem sempre não foi essa? A do interesse em se levar alguma vantagem?
E ela nada mais tinha a oferecer a não ser a própria morte a se aproximar sorrateira, sinuosa, fingindo que estava só por perto para assustá-la.
E quem é doido de atender e entender a moribundez do outro ser humano?
Ele é que  não era !

Melhor mesmo pra ele era ficar calado, do outro lado do fio, a espreitar o número que o visor mostrava.
Bem que tentara esconder que havia um espião a lhe confidenciar que o número do visor era o dela.
Falhara na tentativa por confiar demais na sua boa estrela.

A morte não é boa companheira para quem se pensa apenas na metade do caminho.

Mal sabe ele dos critérios que movem a mão do que faz a tão temida lista.
Não é com certeza a ordem de entrada neste mundinho complicado, tem muito detalhe que nos escapa
que não nos é dado saber, não é da nossa competência.

Mas ela  agora sabia, como se o véu se descortinasse total e rapidamente a sua frente,
o medo que o afastara  não era ela e seu cheiro de morte,

era a consciência de que um dia a morte se aproximaria dele também,
por mais que corresse, e, como estava fazendo agora, com ela, faria com ele.

O abraçaria pra sempre.

(Elza Fraga)

UMA VIDA NA CHUVA

...
Em um dia de chuva forte ele partiu. Os raios rasgavam o céu negro. O barulho do trovão vindo do lado oeste ecoava dentro do quarto escuro. A energia que faz a luz se fora, como a sua.
E do meio do medo e do caos em que -sabia - aquela falta iria, para sempre, transformar o que seria futuro, só conseguia pensar em uma única coisa:

Será que ele levara a capa de chuva?

(Elza Fraga)

sábado, 22 de maio de 2010

TARDE DEMAIS

Ela passara a vida a mudar de dono, escrava vendida por tostões de vida.
Primeiro o pai, chicote sempre a mostra e proibições a vista.
Numa infeliz e inútil tentativa de alforria veio o marido.
E o que lhe parecera cor de rosa rapidinho virou cinzas.
Só sobrou a lembrança do bolo e da festa, depois foram noites insones de medo.
Imprevisível este novo dono, ela nunca conseguira adivinhar antes
pra pular fora dos bofetes que cada vez ficavam mais frequentes e duros.
Aprendeu rapidinho a receita da liberdade:
Vidro moído na cervejinha do final de tarde, todos os dias, religiosamente.
Um dia o pobre cuspiu sangue, levaram pro hospital, mas o mal já estava feito
e sacramentado.

Ela se imaginou agora livre para todo o sempre, amém!

Mas esquecera apenas um detalhe, o canalha havia deixado um canalhinha
que ele próprio adubara nas longas tardes de ensinamento.
E o que era projeto virou homem, mais parecido com o falecente impossível.


Nunca mais que ela teve pé na estrada. Desistiu.
Só balançava a cabeça em sinal de aceitação pra este último
e derradeiro dono.
Desaprendeu o não, desaprendeu a luta, desaprendeu a luz.

Cansou de lutar contra as correntes e se deixou ali no escuro, parada,
morta em vida.

E se deu conta que aprendera tarde demais a obediência.

(Elza Fraga)

ESTRANHAS COMPANHIAS

Cada vez que ele partia ela perdia o olho lá longe, onde a estrada encontrava o céu, mas ele sempre voltava, cheio de histórias de mundos distantes,  de palavras que ela nunca tinha ouvido, cheiros estranhos
Na última vez ela ainda pediu pra ele ficar, alguma coisa dentro do peito dela tocou um sino diferente de aviso, ele não deu ouvidos.
Nem a ela e nem ao sino
E quando ela olhava pro infinito, bem mesmo no encontro da estrada com o céu, ele sumiu
pra sempre
E ela nem sabe quanto tempo faz que o olho na estrada e o toque do sino não a largam mais.

(Elza Fraga)

sexta-feira, 21 de maio de 2010

NOSTALGIA


Hoje, quando passava perto da barraca de frutas na feira, escutei o grito do feirante:
-Tangerina, tangerina, olha as mais doces, as mais deliciosas e cheirosas tangerinas.
Engraçado, ou perdi a capacidade cheiratória ou o fulano estava querendo me vender gato por lebre.

Lembrei do cheiro de tangerina que invadia os narizes da minha infância, era quase impossível não roubá-las do cesto e ir comê-las escondidas atrás do muro, nos fundos
da casa, esconderijo secreto que a mãe ainda não havia descoberto.
Ela só sentia a rapidez com que o cesto mostrava o fundo.
Fazia uma careta engraçada de ponto de interrogação, enquanto a molecada fazia cara de paisagem.
Aliás, tangerina nada, era mexerica!
Assim a chamávamos, não sei se  este era [ou é] o nome certo da fruta
ou se éramos por demais íntimos dela.

E isso me trouxe uma nostalgia resgatada lá dos idos e passados tão remotos
que já os considerava perdidos no id, que é pra onde eu jogo sempre o que
não quero lembrar mais é nunca!

E me deu uma gana, uma vontade quase incontrolável de voltar à feira toda,
pegar a faca do vendedor de melancias bem ao ladinho das tangerinas,
e picotar aquele homenzinho gritador que oferecia o que não podia vender
por pura falta de estoque:
O cheiro bom da minha infância.

(Elza Fraga)

segunda-feira, 10 de maio de 2010

ESCATOLOGIA FEMINISTA



Segurou a porta do elevador, deixou a moça entrar primeiro por dois motivos, parecer gentil e olhar a bundinha desta nova vizinha.
Nossa! Não era bundinha.
Era uma senhora protuberância daquelas de fazer a baba escorrer queixo abaixo e santo se desfazer da  auréola.

-Oi, seja bem-vinda. Nova por aqui?

E a boa filha de uma mãe  nem um sorriso pequeno, de resposta.
Ou sequer agradeceu a segurada da porta.
Cara fechada, em cima do salto, só na pose.
Por um momento ele se sentiu um idiota.

Sorriu amarelo pra pedante e imaginou, só  de raiva, ela sentada na privada,  prisão de ventre comendo as tripas e ela ali, só nos puns, cara vermelha do esforço inútil, quase explodindo veias e vísceras parede do banheiro a fora.

Só de pensar desatou numa risada de escorrer lágrimas nos olhos, quanto mais tentava parar de rir, mais ria.
Tentou pensamentos de velórios, de batida de carro, avião caindo com amigo dentro. Nada!  Estava com riso frouxo, risada descontrolada.

E aí olhou pra ela com lágrimas correndo cara a fora, e viu, surpreso,  ela rindo também, pra ele!

Quando desceram no térreo ela colocou ligeirinho, na sua mão, cartão com nome e telefone, deu um apertão e sumiu no saguão.

Ele aprendeu nesse dia uma lição que valeria pro resto da vida:
Mulher não foi feita pra sutilezas e salamaleques.
Gostam de ver, no olhar da gente,  o pensamento nojento e impuro
escapando das órbitas e caindo diretamente sobre elas, o escatológico.

São todas umas bizarras.


(Elza Fraga)

terça-feira, 4 de maio de 2010

CARTA CONFESSIONAL PRA NUNCA SER REMETIDA

Cansei!... Fui até a esquina, me procura por lá!
Dei queixa ao bispo, ‘sartei’ de banda!
Não acredito em mais uma, umazinha, promessa das pequenas.
Você mente em tom maior.
Melhor, 
você mente sementes que germinam em mim,
me fazem fértil.
Virei árvore, parada, grande, frondosa, se deite aqui na minha
rama, arme a rede, se deleite; mas não deite mais esta falação
de doido pra cima da minha alma.
Ela nem agüenta mais e clama:
Calma, vai devagar cantar em outra freguesia.

Que mania infeliz é esta de me tirar de idiota confessa
quando eu sou apenas poeta!

(Elza Fraga)

quinta-feira, 29 de abril de 2010

O AUSENTE

A chuva na janela, mais a falta de sinais seus,
mais o meu descontrole formaram  a soma imperfeita.

E foi assim que me decidi manchete pro jornal de amanhã:
Encontrada morta, nenhum  sinal de violência,
só de ausência.

(Elza Fraga)

quarta-feira, 28 de abril de 2010

A TRAIÇÃO

Sabia que ali tinha coisa! O cheiro estava no ar, era só respirar, nem precisava ser fundo,  que sentia algo entre o sujo e o fedido.
Fingiu que não percebeu, assobiou, limpou a gaiola do passarinho, pegou o jornal no quintal, colocou na mesa.  Tudo igual, todo o dia igual, rotina!

Tomou seu café, fraco como água de calcinha, não reclamou, se comportou como o cavalheiro que nunca tinha sido.
Esperou ela sair do quarto como fazia sempre, depois era a vez dele.
Banho, troca de roupa e batente, ganhar o pão da vida.

Geralmente quando ele saia ela já tinha entrado no ônibus,
casa da madame, faxina, explicava ela.
Mas dinheiro que era bom, vindo dela, ele nunca tinha visto a cor.
Lugar tão secreto, nem o telefone  nunca deixara para uma emergência.
Ela ia segura, sabia que ele ficava preso em suas arrumações,
tinha horário a cumprir.

Esse dia não. Foi só ela bater a porta e ele sair correndo do banheiro, pegar a câmera.
Afinal ia querer registro.
Saiu pelos fundos, se esgueirando entre varal de roupas, balanço de criança,
carrinho de mão enferrujado.
E lá ia ela no seu andarzinho de passarinha tonta, olhava pros lados como se
desconfiasse de alguma coisa.
E ele,  a sombra, seguia cada passo a distância segura.

Passou o ponto do ônibus, ela prosseguiu.
Passou a igreja,  a pracinha, o centro comercial, as casas foram rareando 
e ela seguindo em frente.
Acabou a rua de asfalto.
Agora era um caminho de terra, orlado de flores miúdas,  muitas árvores,
cheiro bom de verde.
Chegou num riacho, ora bolas, nem ele sabia daquele riachinho gramado
nas laterais. Lugar bom pra se fazer sacanagem!

Mas sacanear logo ele já era demais, pensou.

Agora pego ela e o desgraçado e acabo com a raça dos dois.

Ela calmamente, como se pressentisse público, abriu vagarosamente,
um a um, os botões do vestido. Deixou escorregar pelos ombros.
Desceu as alças do sutiã, rodou o fecho pra frente, soltou e deixou cair,
descuidado no capim. E os mamilos, tão sonegados pra ele,
descaradamente a mostra, endurecidos por pensamentos pervertidos que colocava
um riso de safadeza na cara inteira.
E ele, como um gato na folhagem, quase esquecendo a ira
e atacando aquela carne ali, pertinho,  oferecida.

Escutou passos, se encolheu mais ainda, não poderia estragar tudo agora,
melhor ver, ter certeza.
E teve!

Os dois corpos se encontraram, ela no afã de desvestir o outro corpo,
pressa e sofreguidão.

E ele com os olhos arregalados, estatelado, preso ao chão.
Mistura de susto e riso.  E alívio!

Mas e agora?

Como poderia mostrar  pro irmão as fotos das duas esposas,
a sua e a dele,  se roçando no capim?

(Elza Fraga)

A CHAVE DA MENTE

Ele pensou, pensou, pensou até conseguir desconectar dentro da
cabeça alguma peça importante.
Pronto, conseguira desligar as palavras, marteladores de cérebros.

O mal e o bem que habitavam juntos anteriormente, numa boa,
mudaram de endereço.
Ele nem sabia pra onde. Aliás, ele não sabia mais de nada.
Não sabia se existiam nomes, endereços telefones.

Daqui pra frente só novidades, mas, esperto, ele escaparia delas,
não cairia em armadilhas.

E foi tão fácil, foi só atarraxar aquele sorriso bobo na cara assim que
desalojou, pra sempre as palavras.
Este era o segredo, a fechadura da mente.
Nada de chave, nada de cadeado, nunca mais que se abriria.

Sem, rumo, sem prumo, sem dores, só cores e cheiros.

Pena que se esqueceu de anotar a fórmula antes do final do processo,
me condenando a ficar com este zumbido duplo de pensamentos
desencontrados,
sem nunca saber ao certo quando são os meus,

quando são os dele.

(Elza Fraga)

segunda-feira, 26 de abril de 2010

PORTARIA DE VIDA


Retrato do Dr. Gachet, de Van Gogh


Achou que Deus estava querendo brincar com ele.
Achou não, teve certeza quando ela olhou por cima do ombro,
arriscando um torcicolo, só pra dar uma piscadela.
Pronto. Fechou com chave de ouro.
Este dia era dele.
Não andou mais, correu, pulou, saltou danças imaginárias,
inventou passos coreografados.

Já fazia tanto tempo que ele secava aquela morena e ela nem aí.
Nem um sorriso, um oi de má vontade, uma olhadinha pequena que fosse.
Só a soberba, a pose, o desdém.
A segurança de se saber mais que ele em tudo.

Mulher formada, não sabia bem em que, mas formada em faculdade!

E ele, que mal rabiscava o nome, estava levando pra portaria,
onde sonhava mais que trabalhava, uma piscadela de olho,
e da morena formada!
Este formada era muito importante pra ele, mais que pra ela, talvez.
Resolveu se dar ao luxo de um cafezinho no bar da esquina,
pertinho do trabalho, nem ia se atrasar.

Entrou com pose de macho satisfeito com a vida.
" Bota aí um café, e hoje quero com adoçante, falô?"
Nem pensar mais em engordar, sua cabeça já fazia planos
de exercícios, ginástica, academia!

Foi quando escutou a conversa de duas moradoras do prédio,
bem atrás dele:

-Será que ela pagou a aposta que perdeu da gente?

E a outra
-Claro, a esta altura o idiota do Zé já deve ter levado sua piscadela
pra sonhar na portaria.

A primeira, mais maldosa:
- Pro banheiro, querida, pro banheiro!


(Elza Fraga)

sábado, 24 de abril de 2010

A TROCA

Era a milésima tentativa, agora a carta tinha que sair, de um jeito ou de outro.
Querida.
Não, melhor tirar o querida.
Amiga.
Também não. Ficaria impessoal e vago, ele transava com ela toda
terça já fazia tanto tempo que poderia parecer zombaria.
Quem sabe começar direto e ir logo ao ponto?
Respirou, tomou coragem e rabiscou com aquela sua letra miúda e torta:

"Terça feira que vem não precisa vir. Troquei o miolo da fechadura e
entreguei a nova chave a sua irmã. Não é nada com você, é comigo,
Sou um canalha, nem mereço perdão.
Você vai encontrar quem mereça alguém assim, tão devotada”

Sabia que era chavão, sabia que era mentira e sabia que ela também sabia.
Mas se livrara da árdua tarefa.

Nunca imaginara ser tão difícil dar um pé no traseiro de alguém

Mas fazer o que se a irmã tinha a bundinha mais dura que ele já vira
em toda a sua vida?

Não era homem de desperdícios!

A CARRANCUDA DO TERCEIRO ANDAR

Acordou do avesso, dava pra se ver de longe pela cara amassada.
Perdeu a hora, perdeu o ônibus, perdeu o café da manhã farto
servido  pela morena, empregada da carrancuda  do terceiro andar.
Ah, se um dia a velhota sonhasse o que a empregada lhe oferecia por entre
bolos e biscoitos.
Aqueles seios fartos debruçados no balcão, quase saltando fora do decote,
fazia seu dia suportável.

Mas logo naquele dia a megera esquecera de acertar o despertador.
E aí dele se cobrasse alguma coisa, era um desparrame de lágrimas,
de eu não sirvo pra nada, sou uma inútil nesta casa, pra você era melhor
eu já ter morrido...
Desta ultima parte ele gostava e começava a imaginar a víbora dura,
no caixão, e ele fazendo as honras da casa, servindo cafezinho.

Claro que com a ajuda da empregada da carrancuda do terceiro andar!

Sonhar com este dia fazia que as horas passassem mais depressa.

Num repente o sonho ficou amargo, uma sensação de náusea, uma dor
esquisita no ombro. Nem deu tempo de dar um ai. Caiu ali mesmo.

A noitinha, lá estava a megera,  fungando em cima do caixão que não
era pra ele, servindo o cafezinho que era pra ele servir,

com a ajuda da empregada da carrancuda do terceiro andar.

LUA CHEIA

Abriu a porta pra lua, deixou que ela se refletisse por inteira na parede mal caiada,
sentou-se a mesa, a solidão doendo como faca enfiada e girada dentro do peito.
Era a única companhia de todas estas noites.
Pena que tão calada, só escutava suas queixas.

Puxou os dois pratos, um pedaço de pão dentro de cada.
Deixou que a lua  se servisse primeiro e ela ali, só olhando, muda.
Pensou lá com seus botões que a lua estava sem fome esta noite.

E foi só então que ele percebeu o tamanho da sua distração,
era lua cheia!

(Elza Fraga) 

O ASSALTADO

Andava torto, encurvado, sentia o morto que estava querendo saltar boca a fora, o gosto de sangue e vômito, a lucidez cada vez mais longe, as idéias cada vez mais embaralhando e pesando, empurrando a cabeça pra mais perto do chão.
Nem sabia de onde havia partido o primeiro soco, nem sabia porque logo ele escolhido entre tantos outros. Agora não tinha mais tempo pra se preocupar com isso.  Precisava de ajuda. Alguém pra segurar sua alma no colo e embalar cantando as antigas cantigas da mãe que se fora quando ele ainda precisava tanto.

E aí, longe, veio se aproximando o primeiro acorde:
-Dorme criança que a dor não alcança quem o sono acalanta.
Mais alto um pouquinho:
-Dorme criança que a dor não alcança quem o sono acalanta.

Agora cada vez mais perto, cada vez mais perto,
até que a viu, abriu os braços e caiu.

Dormiu enquanto a canção continuava, pro resto da eternidade,

enfim a paz.

(Elza Fraga)

terça-feira, 20 de abril de 2010

A NOITE EM QUE O MEDO EMIGROU

(Prosa poética)

Ofendia, humilhava, dava só o que sobrava
e porrada
e ela vivia dia a dia dos sobejos.
Até que a ousadia a rebelara, se ajoelhou pediu um beijo
um simples beijo

o chute veio insuspeitado pegou no queixo
dor e estrago
inaugurado, sem pompa e gala, novo defeito na cara
já tão marcada, tão amansada no medo

e num levante inesperado de tanta vida esgarçada,
desgraçada, esfiapada, vê a garrafa [cheia].
Bate num rítmo ligeiro bóim bóim bóim bóim
até arrebentar a veia e o sangue inundar o olho surpreso

até acabar a dor da raiva da rejeição de todo o dano do desengano
de tanto ano que ficou pra sempre perdido no tempo
até acabar todo o ar que preenchera aquele pulmão
desumano

agora o vento
levara o medo

E lavara as mãos.

(Elza Fraga)

sábado, 17 de abril de 2010

CONFERIDA


Vai lá se saber o que ela queria, morava no meio daquela calçada
fazia décadas, não sabíamos como e quando chegara,
já fazia parte da paisagem.
Resmungava o dia todo. Uma ou outra coisa a gente até entendia,
mas a maioria era uma ruminação de palavras feias.
Se a gente olhava ela corria brandindo um porrete que mais
parecia a extensão da sua mão.
Se a gente passava de cabeça baixa ela xingava mais alto, pra provocar.
Berrava até a gente sumir na poeira.

Até o dia em que passamos, em bando, e lá estava, sentada, calada,
sem o porrete, sem mais nada sobre si a não ser a pele que Deus lhe deu.
Ainda comentamos:
"A doidinha  enloucou de vez"!

Olhava pro céu como se desvendasse o milagre da vida.

Bem no final da tardinha voltamos pra conferir,
nesta curiosidade indecente de seres humanos,
e lá estava, dura como o porrete que lhe acompanhou
boa parte da vida.

E conferimos:

Ela desvendara o milagre da morte


(Elza Fraga)

sexta-feira, 16 de abril de 2010

VIDA QUE SEGUE

 .
Seguiu o cortejo, lembrou da conta atrasada e com esse truque conseguiu umas lágrimas cara a baixo.
Parou bem na boca do buraco, olhou pra dentro, escuro;
a tarde já vinha caindo nas poucas cabeças ali amontoadas.
Cada uma chorando seus motivos próprios.
Um quase meio sorriso ia se abrindo, se conteve.
Precisava aprender a controlar os pensamentos felizes.
Pensou na mãe, morta tão nova, sofreu mais que burro de carga!
Enquanto divagava procurando uma cara mais condizente com o ato  perdeu o principal.
Quando se deu conta já estavam lacrando com uma placa de cimento a última morada do canalha...
Acabou, agora era só passar no advogado pra saber o que lhe restara deste defuntoso,
meter a mão no seguro, na pensão e ir sustentar direito o coitadinho do Amarildo,
que este, coitado, sempre viveu dos restos que ela conseguia surrupiar.
Avisar que acabaram-se as migalhas!

Este sim, valia a vida!

(Elza Fraga)




O ANUÁRIO

.


"Tira a roupa, agora!"
Ela tirou.
"Deita na cama e me espera quietinha, já volto."

Era primavera, sentia até o cheiro das flores.
Um calor insuportável se fez, será que chegara o verão? Até que era bom estar nua. Mas veio , mansinho, o outono. ela escutou o zuuuuuuum do vento lá fora, jogando as folhas ao chão, passou um arrepio gostoso pelo corpo.
E aí começou a entrar um frio, de principio medroso, mas a vendo inerte, deitada sem proteção, ficou corajoso, começou a soprar cada vez mais forte seu bafo gélido. Este ano vai ter geada, pensou ela. Depois disso a única coisa que lhe passou pela cabeça foi um pensamento vago e esfumaçado de como seria a cara dele se voltasse agora.
e aí fechou os olhos e, finalmente, dormiu.

(Elza Fraga)

JOGO QUE SE JOGA SÓ

 Os Miseráveis -Victor Hugo
.
Éramos tres: Eu, ela e o cigarro embolando a fumaça no ar, formando figuras.

Num repente viramos dois, ela cansou de olhar o vazio tentando adivinhar
que desenho novo a fumaça desenhara, acordei com a ausência. Acendi
um cigarro. A brincadeira perdera o gosto. Virou jogo que se joga só.

Deitei o cigarro ao chão, pisei até a brasa apagar o meu pé nu. Virei um.

(Elza Fraga)

quinta-feira, 15 de abril de 2010

DÚVIDAS

Imagem do acervo da poeta Liria Porto


Mão no queixo. Sentada olhando a tela do computador sem ver.
Pensamento em casa, enquanto o trabalho a reclamava e ela
nem aí, matutava, matutava...
O que andaria ele fazendo neste dia de folga sem ela pra vigiar
seus passos?

A resposta, num flash, estourou dentro da sua cabeça:
Comendo a empregada.

Levantou num ânimo de morrer ou matar e lentamente
fez o caminho pra casa.

(Elza Fraga)

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

UMA PEQUENA PARADA

Estarei mais de um mes fora da net.
Volto no final de outubro.
Fiquem na luz! Bitokitas.


quinta-feira, 10 de setembro de 2009

E O SOL NEM NASCERA

 ....
Hum hum, respondeu sem nem escutar.

Atras da mesa, jornal enfiado na cara e cara enfiada no seu próprio mundo
que este daqui não dá mais pra cristão nenhum, com o mínimo de bom sendo, aguentar de cara limpa.
E as seis da matina  quase todas as caras estão limpas.
Muito cedo pro anestésico em forma de  cachaça ou similares.

Encaraminholava estas idéias tortas enquanto o olho corria as manchetes, só desgraças!
Chuva, barraco desabando deixando criança morta e corpo não achado, ventania
destelhando cidades inteira...
Será o Benedito ou será o fim do mundo, o Apocalipse?

A mente, que nenhuma é obediente, vagava sem rumo até lembrar das pernas
de Odaléia.
Aí se perdeu nos detalhes e aquietou o pensamento só nelas.
Roliças, mesmo sem gorduras excessivas eram um desparrame de carnes
que sabia, por instinto, cheirosas.
Quiça um dia perder a cabeça e a lingua entre aquelas coxas, e nunca mais achar o caminho de volta.
Que voltar pra esta casa, pra esta mesma mulher de quinze anos atras, em versão piorada, tirava a sanidade e o tesão de viver.
Mas Odaléia não. 
Era a novidade, o susto de ser pego com o olho gordo em cima das curvas perigosas.
Esta era carne fresca, exibidamente despudorada com todos na repartição, menos com ele.
E por causa desta indiferença  se sentia menor, menos homem, incapaz de um ato de coragem.
E mais raiva sentia da esquisita sentada a sua frente, que insistia em lhe dirigir a palavra e tinha urgência de respostas, respostas que ele não queria dar, não podia dar, não as tinha.

Vontade de abrir a porta do quarto, pegar uns poucos panos de bunda, e sair assobiando, passarinho solto, sem casa, sem pouso, sem culpa, sem responsabilidade em sustentar aquela vaca usurpadora de espaços indevidos.
Talvez aí Odaléia o olhasse com um misto de ternura e piedade, não era bem o que ele queria, mas já era um começo, uma luzinha acesa no final do túnel.

E o tempo lá fora correndo que nem cavalo solto, indomado, em campina aberta.
E ele aqui preso, pássaro cativo desta vida de merda, gaiola que construiu com a própria mão e esforço!
Só ele poderia desconstruir.

A mulher, muda agora, espionando cada piscadela sua, cada mudança de fisionomia, cada meio sorriso ou cada ricto de amargor, pelas beiradas que o jornal deixava sem cobertura.
Ele sabia que ela sabia que ele nem pensava ou se preocupava com ela e sua vidinha de lavar, passar, cozinhar, cuidar de cachorro e fofocar com a vizinhança do quanto ele era estranho.
E pensar em mais esta lhe doeu uma raiva vinda do fundo do estômago,
os intestinos se entortaram numa revolução besta, subiu a boca aquele gosto de fel
que o apavorava e dava medo. Virava outro nestas horas.

Pegou a talha de queijo, a faca afiada, levantou num movimento rápido e insuspeitado e cravou, fundo, naquele coração sentado na cadeira em frente.
Foi só um grito de susto, um ai, meio que de queixa, de mágoa, de tristeza do que poderia ser e nunca foi.
Uma lamúria vazia contra o nada que tinha sido toda uma vida.
Mal sabia que ia criar fama, fazer carreira nos noticiários logo, logo.
Assim que uma das vizinhas tivesse carência de alguém pra contar a última fofoca.
E ele já saboreava o prazer de ter fornecido a fofoca inesperada.

Limpou a faca na toalha da mesa, pulou por cima do empecilho caido ao chão, sem nem um olhar de curiosidade, remorso ou respeito.
Abriu a porta pra rua

Enfim a liberdade!

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

RUMO AO SOL

.
Ela nascera com aquela função, pra ela fora preparada.
Todas as mulheres que a antecederam na família, vieram
com a mesma :
Essência e carne de dona de casa.
Profissão? Do lar!
Naquele dia, nunca soube porque, acordou de um jeito virado,
do avesso, parecia outra.
Estava esquisita, quente como febre, uma zonzeira na cabeça,
um olhar de ver tudo nublado e escurecido...
Olhou a cama por fazer, deu as costas.
Abriu a porta do banheiro, escovou os dentes mecanicamente,
tomou uma chuveirada pra tentar voltar a normalidade,
seu próprio resgate.
Mas qual... nada! Parecia que nascera dentro dela, durante a noite, algum ser estranho e ocupara o lugar que nem era seu, posto que nem sabia mais quem era.
Saiu pelos corredores a abrir portas vazias de vida.
Achou uma que escondia estranhos adormecidos,
um homem entre duas crianças morenas...
Se ela nem sabia quem era, como poderia saber que trio era aquele?...
Deu de ombros, como se sacudisse de si qualquer envolvimento e,
vagarosamente, cerrou a porta.
Desceu as escadas e caiu numa cozinha branca, asséptica.
Alguma coisa dentro dela lembrou, vagamente, de feituras
de café, cheiro bom de pão na chapa... Desistiu.
Olhou pela tela da janela um sol nascente avermelhando o leste.
Saiu, seguiu em direção ao sol, sentia sede de luz, garganta
seca e ardida.
Os pés descalços nem lhe doíam, doía era a alma, insatisfeita
moradora de um corpo errado.
Não tinha noção de culpa, de certo, errado, permitido, negado...
Só tinha uma certeza: Queria chegar ao sol de qualquer maneira,
antes dele se esconder e adormecer...
E assim, caminhando e subindo, lá ia atrás da luz para clarear
a sua insipidez.
Enquanto isso, numa casa de subúrbio, um homem e duas crianças
acordavam mudos de susto e medo de terem que se bastar de vez.

(Elza Fraga)

O EXÍLIO DA LOUCURA...

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Estou aqui vivendo neste mundo chamado futuro, cheio de esperança, onde brilha sol durante todo o ano e não existe uma linha limite entre as estações: É sempre primavera. Sol e flores, brisa e cheiros, cio e gozo, riso e canto... Uma terra que só eu conheço, só eu enxergo, só eu habito, só eu sinto as suas montanhas, mares, florestas... Danço todos os dias, o dia todo, com raios de sol, parceiros, por entre jardins encantados de cores. Sinto um pouco a falta da chuva, não nego... Penso em como ficaria linda, molhada, cabelos escorrentes pelos ombros, pingando gotas transparentes de luz. Durmo só pra sonhar com água caindo do céu em cima do meu corpo quente. E, num surpreso estranhamento, sempre acordo com saudades do não vivido! Também sinto falta de quem me dê ordens, coordenadas, brigue comigo pelas madrugadas, me sacuda, me balance, depois me puxe, me beije, me arraste pelas calçadas, me ame pelas beiradas de ruas escuras... Mas com isso nem ouso sonhar, é expressamente proibido pelas regras... Do outro lado da porta que divide os mundos existem os que lêem a alma!
Estou num  lugar entre o fim do mundo e a terra do Nada, mas tão atrasado, tão atrasado, que, nele, ainda nem inventaram o amor, o sofrimento e a morte. Acho que é o paraíso, apesar das grades e dos cadeados que me impedem de voltar pro lugar comum, com gosto de sangue, de onde vim originada. A mudança foi definitiva, uma espécie de exílio, mas se fecho os olhos ainda posso ouvir as últimas palavras escutadas, cada vez mais longe, cada vez mais fracas: Vai, atravessa a porta, é pro seu bem... é pro seu bem... é pro seu bem...
...
Seria até verdade, não fosse esta maldita solidão...
.
(Elza Fraga)

domingo, 17 de maio de 2009

A MOÇA QUE DESCOMIA MENTIRAS

...
Ela foi uma criança criativa, uma adolescente perigosa.
Virou uma adulta mentirosa.
Tinha duas escolhas na vida:
Escrever livros, contando as histórias que inventava da vida
de amigos, parentes, vizinhos e afins, e fazer uso das suas
mentiras próprias; ou virar atriz e viver as mentiras alheias,
sem ter que sair machucando Deus e o mundo e mais um pedaço,
melhor de tudo, sem sentir culpa no cartório.
Talento pouco na arte de escrevedora e de intérprete, e muito pra invencionices oralmente fantasiosas, nem escreveu o livro,
nem virou atriz.
Virou foi uma bulímica da melhor qualidade.
Vomitava as mentiras mal digeridas como quem vomita a
folha de alface do almoço.
Ficou anoréxica a bichinha...
Não lhe parava mais nem uma mentirinha, das pequenas sequer,
no estômago!
E definhava a olhos vistos sem que se pudesse fazer nadica por ela.
Todos se surpreendiam com a rapidez que criava mentiras novas
pra colocar no lugar das vomitadas...
Era a ânsia de prender a vida, que lhe escapava pelas paredes da garganta, nos dedos.
Moribundou jovem, coitada!
Mas continuou a andar por aí, a se encher de ar e de invencionices, sofregamente.
O corpo ainda se locomovia, feio, curvado ao peso das mentiras,
olhos fundos na face cadavérica...
Mais se arrastava do que caminhava, mas ia em frente.
Até que num dia chuvoso uma mentira, das grandes,
se lhe entalou na garganta, não conseguia descer goela abaixo
nem por decreto...
Ficou roxa , perdeu o ar, esverdeou-se, se foi de vez!
Até hoje perguntam de que partiu a tal moça, nessa mania
que o povo tem de achar que todo cadáver tem que ter
causa mortis.
Respondo que morreu de mentira grande demais pra ser engolida.

Sabe que ninguém me acredita?!

(Elza Fraga)

quinta-feira, 14 de maio de 2009

SEGUNDA-FEIRA

...
Segunda feira. A raiva presa como um nó entupindo a garganta. Lembranças da véspera. Ôh domingo maldito aquele!
Fazer comida, esperar marido, gritar com filhos, colocar a mesa, sentar e comer sozinha engolindo lágrimas a cada garfada.
E quando, finalmente adentra o rei, o dono, o todo poderoso senhor da sua vida e sorte, está mais pra porco que pra leão.
Já veio comido e bebido. Só lhe faltou a dormida. E, com o olho a fuzilar palavras não ditas teve que engolir mais esta garfada amarga, o peso sujo dele nos seus lençóis puramente brancos, imaculadamente limpos.
Mas a noite passa, a segunda sempre vem, e veio!
Então abriu a porta do quarto, saiu, pé ante pé, como se criminosa fosse.
Não era! Era só fugitiva da vida,.
Passou pela sala, pegou as tralhas que deixara arrumada de véspera, camufladas
atrás do sofá, deu uma última olhada, sem dó, piedade ou remorso, para os retratos em cima do aparador, quase na porta de saída. Eles lhe retribuiram o olhar, desconfiados. Ela jurava que sorriam de dentro de suas prisões emolduradas.
Apertou o botão do elevador, e o desgraçado não subia. Praguejou. O vizinho do apartamento ao lado lhe esgueirou uma miradela de suspeita. Ela nem aí.
Continuou nobre e na pose, embora já começasse a se sequelar no interior.
E este maldito elevador que não chegava. E este desgramado de vizinho que não arredava o olho e nem se dignava a descer pelas escadas, afinal estava com as mãos abanando, não carregava o peso do mundo nas costas e a valise na mão, como ela.
O corredor começava a respirar cheiros de café, perfumes baratos, urros de crianças acordando, portas se abrindo atras dos jornais do dia. E o elevador dormindo no térreo, cansaço de vidas passadas a limpo, de beijos escondidos e apressados, de casos que não podia contar.
Coitado do elevador. Tinha todas as desculpas do mundo pra acordar mais tarde. Aguentava os xiliques da síndica, os porres do primeiro marido, muitas vezes jorrados em jatos ali mesmo, no seu chão frio.
Acompanhava o romance do moço casado do 1203 com a divorciada, mais velha, do 1501, sem dar um pio, cometer uma inconfidência.
As aulas da menininha, ainda no ensino fundamental, dadas de graça e com graça
pro filho do zelador. Moleque esperto, aprendia rápido, e a lição andava correndo solta e num progresso que só vendo.
E o elevador parado no primeiro piso de garagem, ué, ele desceu um andar? Então acordou! Mas cadê que não sobe?
Perguntas, pensamentos, questões por resolver, a fome do café da manhã não tomado, vontade de fazer xixi apertando e o elevador só no bem bom, andares baixos, talvez sofresse de pânico de altura.
Olhou pro lado e se deu conta que o vizinho, cansado talvez de olhar pra sua cara que não deveria estar das melhores, descera as escadas e nem um tchau. Se escafedeu!
Conferiu o relógio, dez pras sete, daqui a uns cinco minutinhos o corredor iria ser tomado de assaltos por babás e bebês, moleques de mochila, mães praguejantes,
homens de terno e gravata, outros de moletom usando a barra da escada pra alongamento.
Coçou a cabeça. desgrenhou, sem querer, mais ainda os cabelos que, na pressa, nem viram um pente.
Conferiu o painel, e lá estava o elevador, um andar abaixo do seu.

Virou as costas, rodou a chave na fechadura, entrou pé ante pé, depositou suas tralhas no mesmo esconderijo e decidiu que não era um dia propício.

Talvez na segunda-feira que vem ela fugisse outra vez.

(Elza Fraga)
http://arterestrita.ning.com/
http://tempoinverso.blogspot.com/

domingo, 26 de abril de 2009

O SEGREDO DE CALAR O TEMPO

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Quando olhei o relógio, assustada com o barulho chato que ele fazia,
comentei com os meus botões o quanto eu era irresponsável com este negócio de tempo.
Não me importava se o ponteiro andava pra frente, pra trás ou pro lado. Eu nunca fazia nada mesmo na hora em que esperavam que eu fizesse... Acho que era uma maneira de castigar a vida que insistia em amanhecer, entardecer, anoitecer, metodicamente, passando pelo vidro da minha janela.
Absoluta e repetitivamente igual
Não teria porque ser diferente... A vida corre pelos dedos da gente. Se corrermos juntos ela nos pega na curva, melhor ficar aquietado, abestado num canto, ludibriando a infeliz que só quer correr porque não aprendeu a se comportar como pessoa direita, de elegância e berço.
Bem se vê que a vida não foi educada pelas mãos e falações diplomáticas de minha mãe... Ah, essa sabia direitinho o valor da quietude. Filho tinha que ser tudo besta domada. Era o dia todo de “cala a boca menino, se aquiete”! E aí daquele que não engolisse palavras, choros e lamentos rapidinho. O cascudo comia solto e era varada pra todo o lado!
Não que esta educação baseada nos mais meritórios princípios da lei do mais forte tivesse contribuído pra me fazer lerda, não... A culpa não foi da psicologia aplicada com tanto fervor em costas e pernas. Eu já nasci assim, defeituosa, com uma visão aleijada e torta de contar o tempo.
Tentei uma vez, num desespero de fingir normalidade, me fazer aliada. Comprei um relógio de pulso.
Pulava da cama as sete, engolia um café com bolachas. Almoçava meio dia em ponto. Tomava o chá das cinco com biscoitos daqueles que derretem na boca. Jantava as oito e ia dormir as dez... Pensa que consegui comovê-lo? Dominá-lo? Ledo engano!
Engordei uns trocentos quilos, e ganhei um monte de dobrinhas por baixo do queixo. Fiquei com os olhos enterrados dentro de duas bochechas redondinhas igual a um círculo.
E o infeliz continuou zombando de mim no seu claudicante tic-tac.
Aí me descobri parte deste espaço que, sadicamente, conta a vida da gente por segundos. Quando você respira o segundo já é o próximo. E o próximo. E o próximo... Eta trem danado que nem para na estação pra você conseguir dar uma respirada de três tempos!
E quando penso neste segundinho aqui escurecendo, já na retaguarda, me dá uma vontade louca de endoidar de vez e sair gritando, resgatar das mãos da minha mãe as varas do passado, correr atrás deste tempo malvado e falar pra ele, com toda a sisudez das antigas ordens maternas, com a cara fechada que só ela sabia fazer : Cala a boca menino, se aquiete!Só a minha mãe, na sua sábia mineirice, guardava o segredo de calar o tempo!

(Elza Fraga)

A MOÇA QUE ERA OUTRA

OU
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UM CONTO SURREAL
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Da série histórias adaptadas a realidade atual.
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Eu vou contar uma historinha, afinal sou uma contadora de histórias,
se, no final, vocês acharem alguma semelhança com fatos netnianos,
não se avexem, pode até ter acontecido...
Mistérios da internet e destes malucos tempos modernos.

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Um belo dia uma moça, mais pra senhora já de certa idade, que não se conformava com a passagem do tempo, tentou detê-lo.
E se esforçou, ah, isso foi mesmo, a vero. A sua batalha era diária! Cremes, todos que entrassem no mercado cosmético oferecendo pele lisinha, sem rugas, viço, aparência de bumbum de bebê. Suas prateleiras do closet, seus armários de banheiro, sua gavetas de roupa íntima, estava tudo tomado pelos potes e mais potes.
Aí os potinhos, antes milagrosos, começaram, numa rebelião silenciosa, a invadir o resto do pequeno apartamento. Fizeram um complô, um trato entre eles: Não mais iriam funcionar a partir daquela data.
Firmaram um documento, registraram em ata, deram autenticidade de Assembléia Extraordinária.

Ela começou a perceber que estava perdendo uma batalha vital pra sua vaidade indomada. Partiu para outras frentes. Fez o primeiro email, entrou no primeiro site, virou internauta. E aí se deslumbrou!
Nossa, como era fácil retroceder no tempo,
parar o relógio, manipular as horas.
Virou vício e, quando ela se deu conta, já estava fazendo parte de uns trocentos e não sei quantos espaços netnianos. Já possuia pra lá de dezenas de endereços eletrônicos. Não tinha mais tempo nem pra se olhar no espelho... E, como o que os olhos não vêem o coração não toma conhecimento, começou a acreditar na eterna juventude.

Muito antes dos aniversários passarem a adversários ela já não possuia muito glamour, mas quem queria saber disso agora?

E se reinventou no espaço virtual. Virou uma jovem, cheia de vitalidade e idéias.
Bem, não se pode negar a sua brilhante criatividade e nem deixar de dar mérito a sua inteligência. Como diz o mineiro, 'um cadinho' acima da média.

Escrevia todo o dia, o dia todo. Com as fotos de perfil retiradas de lugares distantes, o mundo que inventou pra estar dentro e as suas fantasias, conseguiu uma legião de admiradores que só fazia engrossar fileiras.
Dava corda, ia até onde o bom senso guiava, as vezes, poucas, perdia a mão, errava a massa. Mas com uma mente brilhante, conseguia contornar, reconvencer, trazer o séquito a seus pés.

Mas como a inveja é uma merda, começou a pipocar um montão de mulher mal'amada, orbitando a sua volta, esperando o momento de dar o bote.
Todos sabem que mulher é parente direta da víbora, desde o Éden.

E tanto espreitaram, confundiram, espicaçaram, vigiaram, bizoiaram que conseguiram.
Pegaram um furo que não tinha como ser consertado.

Ela, no afã de ficar melhor na fita, de desenhar um retrato cada vez mais atraente e agregador de meninos, talvez na tentativa de resgate de uma juventude remotíssima e apagada, sem grandes aventuras e emoções, sem pompa e circunstância, cometeu o primeiro grande deslize, destes sem conserto ou remédio:
Postou, como sendo seu, material alheio em espaço particular, achando, inocentemente, que a turba devoradora de fígados não iria ter acesso a lugar tão remoto da net.

Ah, mas nada escapa, tudo se destampa um dia!
E se uma menina, apenas uma, das seguidoras 'detetivas' encontrar um material tão explosivo e rico de provas, claro que ele vira de dominio público num piscar de olho.
Menos que o tempo levado pra adquirir uma nova ruguinha de expressão, um pézinho de galinha...

Dito e feito. O estrago estava consumadíssimo.
Cabisbaixa, chorosa, máscara arrancada com a brutalidade e sadismo feminino, tentou consertar o sem conserto, reverter o irreversível.

Nada feito, as seguidoras da vida alheia, se certas ou erradas, nem entro no mérito, a cercaram pelos sete lados. E acertaram o milhar!

Bem, como eu já havia escrito, ela era inteligente, mas um pouquinho ingênua.
Tomou logo suas providências derradeiras.
Num acesso de fúria quebrou todos os espelhos, não sem antes perguntar:
Espelho, espelho meu, existe alguém mais perseguida do que eu?

E partiu pro front, numa estratégia não esperada pelo inimigo.
Num gesto de desespero e extremismo suicidou o fake, mesmo sem corpo,
sem IML, sem notícia de jornal...
Os acusadores se comoveram, confundiram novela com vida, ficção com realidade, virtual com mundo.
Teve luto, teve choro, só não teve vela, porque o endereço
fakeniano, o local, talvez, da provável cremação, a cerimônia íntima, e as orações ao vivo, pro morto, não foram facultadas a nenhuma legião, nem de admiradores e nem de detratores.
Mulher então, ahh, que vá de retro, satanás!

Triste e feio assassinar um fake, mas crime, destes que dá cadeia, não é!

Mas o fecho desta história é o que mais me encafifou:
Disseram, a boca pequena, que ela já está, lépida, novamente jovem e bastante fagueira, em um outro site, o primeiro com certeza, desta próxima fase; internautando e recolhendo novos admiradores.
Mas, como os tombos servem pra ensinar a levantar e calçar os caminhos pra não retombar, mudou o personal.
Não, eu não vou contar procês se agora ela vem de bruxa, fada, pintora, contadora de histórias, dona de casa... Cada uma que descubra por si só e, se quiserem, podem me contar. Eu sou um túmulo, apesar de contadora de causos, hehehe.

Mas isso é só uma história, quem quiser que conte outra

(Elza Fraga)

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

ERA UMA VEZ...

Da série histórias adaptadas a realidade atual.
...

Era uma vez uma princesa encantada que vivia a beijar os sapos do brejo.
Não escolhia, achava, era sapo, tascava um beijo e esperava, esperava...
Como sapos são sapos e sempre serão, e esta história de virar principe é mentira
das histórias da infância, ela ficou marcando passo e perdendo tempo à toa.

Até que um dia se aborreceu, caiu a ficha, pegou um sapo e levou pra casa.
Guardou bem guardadinho na banheira e reservou.
Desceu as escadarias do palácio, essa história é do tempo que palácios existiam,
foi pra saleta de costura, pegou uma linha vermelha - cor da paixão, uma agulha bem grossa, uma tirinha de papel, um lápis, sentou a mesa, escreveu o nome do lacaio mais bonito do rei, seu pai. Subiu as escadarias novamente. Aí a coitada já estava arfante! Era uma princesa desacostumada de exercícios físicos. Não fazia nem Pilates.

Pegou o sapo pelos colarinhos, era um sapo de vestimenta nobre, um verdadeiro cavalheiro nos trajes, abriu a boca do bicho, jogou a tirinha de papel com o nome do escolhido dentro da goela do pobre. E, sem dó e nem piedade, costurou a boca do sapo para que ele não contasse o seu segredo e nem mostrasse a tirinha pra ninguém.
Toda a corte daqui destas bandas sabe o quanto os sapos são fofoqueiros e falastrões.
Saiu, pé ante pé, sem fazer barulho, e jogou o sapo no brejo novamente. Virou e nem olhou pra tras. Retornou ao palácio e a sua vidinha triste de princesa sem namorado.

Agora ela possuia uma esperança. Quem sabe o feitiço, passado de rainha a princesa por longos séculos, não funcionasse?

Quem sabe o lacaio, formoso, ombros largos, apetitoso aos olhos de todas as moças casadouras do reino, não se apaixonasse por ela?

Não era nenhum principe, verdade, mas pra quem estava quase que fadada a casar com um sapo, qualquer melhora era lucro grande.

Parece que depois disso a coitada ensandeceu de vez.

Uns dizem que foi rebaixada de princesa a bruxa oficial do reino, perdeu os dentes, ganhou verrugas e uma vassoura última geração, com um motor de fazer inveja a fórmula um.

Outros dizem que, como o lacaio não se mancou e continuou ignorando solenemente a coitada, a mesma mandou que lhe decepassem a cabeça sem anestesia nem nada.

Há ainda uma corrente que diz que a pobre ficou solteirona e começou a se meter na vida de todo o mundo ao redor. Falava da vida alheia que era uma beleza. Cascudava sobrinhos, implicava com todos os sapos do reino, e vivia a vociferar contra tudo e todos.

Mas a verdade, a verdade mesmo, verdadeira, é que ela desistiu de ser princesa, fugiu do reino encantado, veio morar em Copacabana e, todas as noites é vista no calçadão com a sua bolsinha amarela e sua mini saia, e escolhe o principe que bem entender pra lhe contar histórias pela noite a dentro.

Depois que mudou de vida descobriu que a gente pode ser feliz pra sempre, é só mudar o rumo da história.

E quem quizer que conte outra...

(Elza Fraga)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

DESEMBARQUE

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Eram jovens, uma vida inteira pela frente a ser descoberta, aproveitada, sorvida, pensava ele ávido de coisas diferentes.
Uma vida inteira pela frente para caber todos os sonhos que acalentava no peito, para ser feliz finalmente, pensava ela ávida dele e do desfrute das promessas.
"Que bela noite", dizia ela, "quantas estrelas piscando no céu."
"Vieram só para enfeitar a sua noite", respondia ele...
"Está vendo aquela grandona, a mais brilhante?... A noite a teceu só para iluminar os seus cabelos... E a pequenininha, escondida entre as nuvens, está apenas escondendo os nossos beijos dos olhares curiosos."
Mas o tempo não para a escutar tolas conversas, ele galopa qual cavalo livre em prados abertos... Com eles não foi diferente. Veio o ajuntamento, a descoberta, o desfrute, a monotonia, o enfado e, finalmente, o entojo... Afe!... que não havia um dia sem briga e nem uma noite sem dor de cabeça, desculpa universal de todas as mulheres quando o amor claudica...
Eram maduros, sonhos opostos e insatisfeitos, filhos criados e voando vidas próprias...
"Que bela noite" - disse ela - talvez cabeça num passado longe, lembranças vagas de um tempo enterrado ou esquecido. "Quantas estrelas piscando no céu para enfeitar algum amor que, porventura, ainda insista em acreditar na felicidade."
"Deixa de ser burra, sua tola", ele responde, "acaso não aprendeu, com toda esta idade, que estrelas são apenas corpos celestes formados de plasma, o quarto estado da matéria, e não de gás, como muitos pensam, e que se mantém coeso devido sua força gravitacional?"

E foi aí, nesta noite de céu estrelado, que ela desistiu de vez de tudo e desceu do bonde da vida...


(Elza Fraga)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

O DIA EM QUE A HISTÓRIA MORREU










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Se lhe perguntassem o ofício não tinha dúvidas, contava histórias e ponto. E por encomenda.
Queriam histórias de bichos, de fadas, de bruxas malvadas,de saci pulando na floresta, de estrelas fazendo tiaras de luz e enfeitando cabelos de princesas, de principes beijadores, de sapos encantados? Era só pedir!
Queriam modernismo, carros, homens cheirando a lavanda, mulheres abusadas que fugiam de casa pra ganhar seu sustento vendendo o que tinham, bandidos que roubavam corações de meninas donzelas ou nem tanto, pancadaria, sangue? Também era só pedir.
Estava nesta vida desde que se conhecia por gente. Começou, lá quando era um palmo de gente, inventando lendas para escapar dos cascudos e beliscões de Cotinha, que afiados assim pra doer danado nunca ninguém vira antes!
E se encorpou, se perdeu na vida com um mancebo bonito de olhos de lua que nem era daquelas bandas. Ele se foi. Seguiu no encalço como quem espreita onça nos riachos bebedouros. Achou, grudou, embarrigou, teve seus meninos, que não era boba de parir fêmea pra viver solta na vida.
Entre uma parida e outra sentava na soleira e esperava. Logo aparecia um, outro, mais outro, e ela calada, pitando e cismando, preparando na sua cabeça de enredos o repertório da tarde. E quando achava que a platéia já estava no exato tamanho do seu merecimento, despejava falação em cima do povo.
Puxava, lá dum tempo perdido, as histórias que escutara de Cotinha. Nunca iguais. A cada contada um detalhezinho novo, um tempero ardido, um molho acolá...
Depois entrava nas que, sua própria cabeça de nuvens, inventava.
E era aí que a sessão começava mesmo. Se transformava. Era a artista no palco maior e mais iluminado, sorria, gargalhava, fungava, chorava e interpretava cada personagem como se disso dependesse a sua reputação.
Num dia meio chuvoso, acordou lenta, olhou pra rede bem do seu lado esquerdo, vazia, sem função. Olhou as tralhas, conferiu o faltoso. Uma
caneca, uma muda de calça, um par de chinelos gasto, a viola e os olhos de lua. Contou as crias, essas ficaram todas espalhadas pelo quintal numa algazarra de quem não entende.
Ela entendeu. Fechou pra sempre a porta por onde entravam as histórias, trancou a mente, jogou a chave fora. Sentou na soleira, silenciosa, olhar estranho, perscrutando perdido lá pelas bandas do
fim do mundo.
O povo ainda insistiu por um bom tempo, ficava lá esperando, não sabia bem o que. Até que cansou de tentar entender porque raios a louca das histórias emudeceu assim, de uma hora pra outra, de vez,
e ficou só aquele olhar vago olhando sem ver!

(Elza Fraga)

A TRAIÇÃO DO ESPELHO







Hoje dei de cara com o espelho da sala de jantar. Não foi de caso pensado, nem de propósito. Não olhei com o olho de ver. Olhei com o olho do sem querer...
Foi bem assim, vinha flanando, procurando algo que nem sabia o que, numa insatisfação doída e doida, num repente de querer mãos e cabeça ocupadas. Quiçá um livro destes bem comportadinhos, com letrinhas mágicas e perfeitas, todas redondas, facinho de ler, facinho de compreender, pois não estava em dia de grande acuidade mental, estava mais pra lerda, uma leseira de cabeça, uma vontade de achar tudo mastigadinho...
Um jornal aberto olhou pra mim, pedinte que só. Ignorei e foi este o erro fatal,
Ao levantar a vista pra fugir das manchetes, dei de cara com o espelho, enorme, assustador, de bordas negras feitas em madeira pintada.
Levei um susto que me arregalou a cara toda, até o olho!
Aquela ali dentro do espelho, presa pela surpresa da descoberta, não era eu...
Bem, pelo menos não era a “eu” que conhecia. A eu de face perfeita e semblante fino, linhas retas e clássicas, um toque de exotismo pra confundir com beleza... Não, aquela era uma mulher gasta. A boca sem sorriso, o olho sem brilho, as faces chupadas formando vincos... Uma caricatura mal feita e mal acabada do que fui um dia. Ainda ontem eu era a ninfa. Quando foi que me transformei neste simulacro de mulher?
Talvez eu tenha parado no tempo, mas o espelho, este covarde a quem dei abrigo em parede de honra, frente a mesa de jantar, num ato de traição explícita, continuou a contar o tempo... E hoje me sabendo tremendamente despreparada para novidades ruins, resolveu me dar de troco, a medida do real...
Gente, que terra é esta em que não se pode confiar mais nem no nosso próprio espelho?!

(Elza Fraga)