.
Quando olhei o relógio, assustada com o barulho chato que ele fazia,
comentei com os meus botões o quanto eu era irresponsável com este negócio de tempo.
Não me importava se o ponteiro andava pra frente, pra trás ou pro lado. Eu nunca fazia nada mesmo na hora em que esperavam que eu fizesse... Acho que era uma maneira de castigar a vida que insistia em amanhecer, entardecer, anoitecer, metodicamente, passando pelo vidro da minha janela.
Absoluta e repetitivamente igual
Não teria porque ser diferente... A vida corre pelos dedos da gente. Se corrermos juntos ela nos pega na curva, melhor ficar aquietado, abestado num canto, ludibriando a infeliz que só quer correr porque não aprendeu a se comportar como pessoa direita, de elegância e berço.
Bem se vê que a vida não foi educada pelas mãos e falações diplomáticas de minha mãe... Ah, essa sabia direitinho o valor da quietude. Filho tinha que ser tudo besta domada. Era o dia todo de “cala a boca menino, se aquiete”! E aí daquele que não engolisse palavras, choros e lamentos rapidinho. O cascudo comia solto e era varada pra todo o lado!
Não que esta educação baseada nos mais meritórios princípios da lei do mais forte tivesse contribuído pra me fazer lerda, não... A culpa não foi da psicologia aplicada com tanto fervor em costas e pernas. Eu já nasci assim, defeituosa, com uma visão aleijada e torta de contar o tempo.
Tentei uma vez, num desespero de fingir normalidade, me fazer aliada. Comprei um relógio de pulso.
Pulava da cama as sete, engolia um café com bolachas. Almoçava meio dia em ponto. Tomava o chá das cinco com biscoitos daqueles que derretem na boca. Jantava as oito e ia dormir as dez... Pensa que consegui comovê-lo? Dominá-lo? Ledo engano!
Engordei uns trocentos quilos, e ganhei um monte de dobrinhas por baixo do queixo. Fiquei com os olhos enterrados dentro de duas bochechas redondinhas igual a um círculo.
E o infeliz continuou zombando de mim no seu claudicante tic-tac.
Aí me descobri parte deste espaço que, sadicamente, conta a vida da gente por segundos. Quando você respira o segundo já é o próximo. E o próximo. E o próximo... Eta trem danado que nem para na estação pra você conseguir dar uma respirada de três tempos!
E quando penso neste segundinho aqui escurecendo, já na retaguarda, me dá uma vontade louca de endoidar de vez e sair gritando, resgatar das mãos da minha mãe as varas do passado, correr atrás deste tempo malvado e falar pra ele, com toda a sisudez das antigas ordens maternas, com a cara fechada que só ela sabia fazer : Cala a boca menino, se aquiete!Só a minha mãe, na sua sábia mineirice, guardava o segredo de calar o tempo!
(Elza Fraga)
domingo, 26 de abril de 2009
A MOÇA QUE ERA OUTRA
OU
.
UM CONTO SURREAL
.
Da série histórias adaptadas a realidade atual.
.
Eu vou contar uma historinha, afinal sou uma contadora de histórias,
se, no final, vocês acharem alguma semelhança com fatos netnianos,
não se avexem, pode até ter acontecido...
Mistérios da internet e destes malucos tempos modernos.
.
Um belo dia uma moça, mais pra senhora já de certa idade, que não se conformava com a passagem do tempo, tentou detê-lo.
E se esforçou, ah, isso foi mesmo, a vero. A sua batalha era diária! Cremes, todos que entrassem no mercado cosmético oferecendo pele lisinha, sem rugas, viço, aparência de bumbum de bebê. Suas prateleiras do closet, seus armários de banheiro, sua gavetas de roupa íntima, estava tudo tomado pelos potes e mais potes.
Aí os potinhos, antes milagrosos, começaram, numa rebelião silenciosa, a invadir o resto do pequeno apartamento. Fizeram um complô, um trato entre eles: Não mais iriam funcionar a partir daquela data.
Firmaram um documento, registraram em ata, deram autenticidade de Assembléia Extraordinária.
Ela começou a perceber que estava perdendo uma batalha vital pra sua vaidade indomada. Partiu para outras frentes. Fez o primeiro email, entrou no primeiro site, virou internauta. E aí se deslumbrou!
Nossa, como era fácil retroceder no tempo,
parar o relógio, manipular as horas.
Virou vício e, quando ela se deu conta, já estava fazendo parte de uns trocentos e não sei quantos espaços netnianos. Já possuia pra lá de dezenas de endereços eletrônicos. Não tinha mais tempo nem pra se olhar no espelho... E, como o que os olhos não vêem o coração não toma conhecimento, começou a acreditar na eterna juventude.
Muito antes dos aniversários passarem a adversários ela já não possuia muito glamour, mas quem queria saber disso agora?
E se reinventou no espaço virtual. Virou uma jovem, cheia de vitalidade e idéias.
Bem, não se pode negar a sua brilhante criatividade e nem deixar de dar mérito a sua inteligência. Como diz o mineiro, 'um cadinho' acima da média.
Escrevia todo o dia, o dia todo. Com as fotos de perfil retiradas de lugares distantes, o mundo que inventou pra estar dentro e as suas fantasias, conseguiu uma legião de admiradores que só fazia engrossar fileiras.
Dava corda, ia até onde o bom senso guiava, as vezes, poucas, perdia a mão, errava a massa. Mas com uma mente brilhante, conseguia contornar, reconvencer, trazer o séquito a seus pés.
Mas como a inveja é uma merda, começou a pipocar um montão de mulher mal'amada, orbitando a sua volta, esperando o momento de dar o bote.
Todos sabem que mulher é parente direta da víbora, desde o Éden.
E tanto espreitaram, confundiram, espicaçaram, vigiaram, bizoiaram que conseguiram.
Pegaram um furo que não tinha como ser consertado.
Ela, no afã de ficar melhor na fita, de desenhar um retrato cada vez mais atraente e agregador de meninos, talvez na tentativa de resgate de uma juventude remotíssima e apagada, sem grandes aventuras e emoções, sem pompa e circunstância, cometeu o primeiro grande deslize, destes sem conserto ou remédio:
Postou, como sendo seu, material alheio em espaço particular, achando, inocentemente, que a turba devoradora de fígados não iria ter acesso a lugar tão remoto da net.
Ah, mas nada escapa, tudo se destampa um dia!
E se uma menina, apenas uma, das seguidoras 'detetivas' encontrar um material tão explosivo e rico de provas, claro que ele vira de dominio público num piscar de olho.
Menos que o tempo levado pra adquirir uma nova ruguinha de expressão, um pézinho de galinha...
Dito e feito. O estrago estava consumadíssimo.
Cabisbaixa, chorosa, máscara arrancada com a brutalidade e sadismo feminino, tentou consertar o sem conserto, reverter o irreversível.
Nada feito, as seguidoras da vida alheia, se certas ou erradas, nem entro no mérito, a cercaram pelos sete lados. E acertaram o milhar!
Bem, como eu já havia escrito, ela era inteligente, mas um pouquinho ingênua.
Tomou logo suas providências derradeiras.
Num acesso de fúria quebrou todos os espelhos, não sem antes perguntar:
Espelho, espelho meu, existe alguém mais perseguida do que eu?
E partiu pro front, numa estratégia não esperada pelo inimigo.
Num gesto de desespero e extremismo suicidou o fake, mesmo sem corpo,
sem IML, sem notícia de jornal...
Os acusadores se comoveram, confundiram novela com vida, ficção com realidade, virtual com mundo.
Teve luto, teve choro, só não teve vela, porque o endereço
fakeniano, o local, talvez, da provável cremação, a cerimônia íntima, e as orações ao vivo, pro morto, não foram facultadas a nenhuma legião, nem de admiradores e nem de detratores.
Mulher então, ahh, que vá de retro, satanás!
Triste e feio assassinar um fake, mas crime, destes que dá cadeia, não é!
Mas o fecho desta história é o que mais me encafifou:
Disseram, a boca pequena, que ela já está, lépida, novamente jovem e bastante fagueira, em um outro site, o primeiro com certeza, desta próxima fase; internautando e recolhendo novos admiradores.
Mas, como os tombos servem pra ensinar a levantar e calçar os caminhos pra não retombar, mudou o personal.
Não, eu não vou contar procês se agora ela vem de bruxa, fada, pintora, contadora de histórias, dona de casa... Cada uma que descubra por si só e, se quiserem, podem me contar. Eu sou um túmulo, apesar de contadora de causos, hehehe.
Mas isso é só uma história, quem quiser que conte outra
(Elza Fraga)
.
UM CONTO SURREAL
.
Da série histórias adaptadas a realidade atual.
.
Eu vou contar uma historinha, afinal sou uma contadora de histórias,
se, no final, vocês acharem alguma semelhança com fatos netnianos,
não se avexem, pode até ter acontecido...
Mistérios da internet e destes malucos tempos modernos.
.
Um belo dia uma moça, mais pra senhora já de certa idade, que não se conformava com a passagem do tempo, tentou detê-lo.
E se esforçou, ah, isso foi mesmo, a vero. A sua batalha era diária! Cremes, todos que entrassem no mercado cosmético oferecendo pele lisinha, sem rugas, viço, aparência de bumbum de bebê. Suas prateleiras do closet, seus armários de banheiro, sua gavetas de roupa íntima, estava tudo tomado pelos potes e mais potes.
Aí os potinhos, antes milagrosos, começaram, numa rebelião silenciosa, a invadir o resto do pequeno apartamento. Fizeram um complô, um trato entre eles: Não mais iriam funcionar a partir daquela data.
Firmaram um documento, registraram em ata, deram autenticidade de Assembléia Extraordinária.
Ela começou a perceber que estava perdendo uma batalha vital pra sua vaidade indomada. Partiu para outras frentes. Fez o primeiro email, entrou no primeiro site, virou internauta. E aí se deslumbrou!
Nossa, como era fácil retroceder no tempo,
parar o relógio, manipular as horas.
Virou vício e, quando ela se deu conta, já estava fazendo parte de uns trocentos e não sei quantos espaços netnianos. Já possuia pra lá de dezenas de endereços eletrônicos. Não tinha mais tempo nem pra se olhar no espelho... E, como o que os olhos não vêem o coração não toma conhecimento, começou a acreditar na eterna juventude.
Muito antes dos aniversários passarem a adversários ela já não possuia muito glamour, mas quem queria saber disso agora?
E se reinventou no espaço virtual. Virou uma jovem, cheia de vitalidade e idéias.
Bem, não se pode negar a sua brilhante criatividade e nem deixar de dar mérito a sua inteligência. Como diz o mineiro, 'um cadinho' acima da média.
Escrevia todo o dia, o dia todo. Com as fotos de perfil retiradas de lugares distantes, o mundo que inventou pra estar dentro e as suas fantasias, conseguiu uma legião de admiradores que só fazia engrossar fileiras.
Dava corda, ia até onde o bom senso guiava, as vezes, poucas, perdia a mão, errava a massa. Mas com uma mente brilhante, conseguia contornar, reconvencer, trazer o séquito a seus pés.
Mas como a inveja é uma merda, começou a pipocar um montão de mulher mal'amada, orbitando a sua volta, esperando o momento de dar o bote.
Todos sabem que mulher é parente direta da víbora, desde o Éden.
E tanto espreitaram, confundiram, espicaçaram, vigiaram, bizoiaram que conseguiram.
Pegaram um furo que não tinha como ser consertado.
Ela, no afã de ficar melhor na fita, de desenhar um retrato cada vez mais atraente e agregador de meninos, talvez na tentativa de resgate de uma juventude remotíssima e apagada, sem grandes aventuras e emoções, sem pompa e circunstância, cometeu o primeiro grande deslize, destes sem conserto ou remédio:
Postou, como sendo seu, material alheio em espaço particular, achando, inocentemente, que a turba devoradora de fígados não iria ter acesso a lugar tão remoto da net.
Ah, mas nada escapa, tudo se destampa um dia!
E se uma menina, apenas uma, das seguidoras 'detetivas' encontrar um material tão explosivo e rico de provas, claro que ele vira de dominio público num piscar de olho.
Menos que o tempo levado pra adquirir uma nova ruguinha de expressão, um pézinho de galinha...
Dito e feito. O estrago estava consumadíssimo.
Cabisbaixa, chorosa, máscara arrancada com a brutalidade e sadismo feminino, tentou consertar o sem conserto, reverter o irreversível.
Nada feito, as seguidoras da vida alheia, se certas ou erradas, nem entro no mérito, a cercaram pelos sete lados. E acertaram o milhar!
Bem, como eu já havia escrito, ela era inteligente, mas um pouquinho ingênua.
Tomou logo suas providências derradeiras.
Num acesso de fúria quebrou todos os espelhos, não sem antes perguntar:
Espelho, espelho meu, existe alguém mais perseguida do que eu?
E partiu pro front, numa estratégia não esperada pelo inimigo.
Num gesto de desespero e extremismo suicidou o fake, mesmo sem corpo,
sem IML, sem notícia de jornal...
Os acusadores se comoveram, confundiram novela com vida, ficção com realidade, virtual com mundo.
Teve luto, teve choro, só não teve vela, porque o endereço
fakeniano, o local, talvez, da provável cremação, a cerimônia íntima, e as orações ao vivo, pro morto, não foram facultadas a nenhuma legião, nem de admiradores e nem de detratores.
Mulher então, ahh, que vá de retro, satanás!
Triste e feio assassinar um fake, mas crime, destes que dá cadeia, não é!
Mas o fecho desta história é o que mais me encafifou:
Disseram, a boca pequena, que ela já está, lépida, novamente jovem e bastante fagueira, em um outro site, o primeiro com certeza, desta próxima fase; internautando e recolhendo novos admiradores.
Mas, como os tombos servem pra ensinar a levantar e calçar os caminhos pra não retombar, mudou o personal.
Não, eu não vou contar procês se agora ela vem de bruxa, fada, pintora, contadora de histórias, dona de casa... Cada uma que descubra por si só e, se quiserem, podem me contar. Eu sou um túmulo, apesar de contadora de causos, hehehe.
Mas isso é só uma história, quem quiser que conte outra
(Elza Fraga)
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
ERA UMA VEZ...
Da série histórias adaptadas a realidade atual.
...
Era uma vez uma princesa encantada que vivia a beijar os sapos do brejo.
Não escolhia, achava, era sapo, tascava um beijo e esperava, esperava...
Como sapos são sapos e sempre serão, e esta história de virar principe é mentira
das histórias da infância, ela ficou marcando passo e perdendo tempo à toa.
Até que um dia se aborreceu, caiu a ficha, pegou um sapo e levou pra casa.
Guardou bem guardadinho na banheira e reservou.
Desceu as escadarias do palácio, essa história é do tempo que palácios existiam,
foi pra saleta de costura, pegou uma linha vermelha - cor da paixão, uma agulha bem grossa, uma tirinha de papel, um lápis, sentou a mesa, escreveu o nome do lacaio mais bonito do rei, seu pai. Subiu as escadarias novamente. Aí a coitada já estava arfante! Era uma princesa desacostumada de exercícios físicos. Não fazia nem Pilates.
Pegou o sapo pelos colarinhos, era um sapo de vestimenta nobre, um verdadeiro cavalheiro nos trajes, abriu a boca do bicho, jogou a tirinha de papel com o nome do escolhido dentro da goela do pobre. E, sem dó e nem piedade, costurou a boca do sapo para que ele não contasse o seu segredo e nem mostrasse a tirinha pra ninguém.
Toda a corte daqui destas bandas sabe o quanto os sapos são fofoqueiros e falastrões.
Saiu, pé ante pé, sem fazer barulho, e jogou o sapo no brejo novamente. Virou e nem olhou pra tras. Retornou ao palácio e a sua vidinha triste de princesa sem namorado.
Agora ela possuia uma esperança. Quem sabe o feitiço, passado de rainha a princesa por longos séculos, não funcionasse?
Quem sabe o lacaio, formoso, ombros largos, apetitoso aos olhos de todas as moças casadouras do reino, não se apaixonasse por ela?
Não era nenhum principe, verdade, mas pra quem estava quase que fadada a casar com um sapo, qualquer melhora era lucro grande.
Parece que depois disso a coitada ensandeceu de vez.
Uns dizem que foi rebaixada de princesa a bruxa oficial do reino, perdeu os dentes, ganhou verrugas e uma vassoura última geração, com um motor de fazer inveja a fórmula um.
Outros dizem que, como o lacaio não se mancou e continuou ignorando solenemente a coitada, a mesma mandou que lhe decepassem a cabeça sem anestesia nem nada.
Há ainda uma corrente que diz que a pobre ficou solteirona e começou a se meter na vida de todo o mundo ao redor. Falava da vida alheia que era uma beleza. Cascudava sobrinhos, implicava com todos os sapos do reino, e vivia a vociferar contra tudo e todos.
Mas a verdade, a verdade mesmo, verdadeira, é que ela desistiu de ser princesa, fugiu do reino encantado, veio morar em Copacabana e, todas as noites é vista no calçadão com a sua bolsinha amarela e sua mini saia, e escolhe o principe que bem entender pra lhe contar histórias pela noite a dentro.
Depois que mudou de vida descobriu que a gente pode ser feliz pra sempre, é só mudar o rumo da história.
E quem quizer que conte outra...
(Elza Fraga)
...
Era uma vez uma princesa encantada que vivia a beijar os sapos do brejo.
Não escolhia, achava, era sapo, tascava um beijo e esperava, esperava...
Como sapos são sapos e sempre serão, e esta história de virar principe é mentira
das histórias da infância, ela ficou marcando passo e perdendo tempo à toa.
Até que um dia se aborreceu, caiu a ficha, pegou um sapo e levou pra casa.
Guardou bem guardadinho na banheira e reservou.
Desceu as escadarias do palácio, essa história é do tempo que palácios existiam,
foi pra saleta de costura, pegou uma linha vermelha - cor da paixão, uma agulha bem grossa, uma tirinha de papel, um lápis, sentou a mesa, escreveu o nome do lacaio mais bonito do rei, seu pai. Subiu as escadarias novamente. Aí a coitada já estava arfante! Era uma princesa desacostumada de exercícios físicos. Não fazia nem Pilates.
Pegou o sapo pelos colarinhos, era um sapo de vestimenta nobre, um verdadeiro cavalheiro nos trajes, abriu a boca do bicho, jogou a tirinha de papel com o nome do escolhido dentro da goela do pobre. E, sem dó e nem piedade, costurou a boca do sapo para que ele não contasse o seu segredo e nem mostrasse a tirinha pra ninguém.
Toda a corte daqui destas bandas sabe o quanto os sapos são fofoqueiros e falastrões.
Saiu, pé ante pé, sem fazer barulho, e jogou o sapo no brejo novamente. Virou e nem olhou pra tras. Retornou ao palácio e a sua vidinha triste de princesa sem namorado.
Agora ela possuia uma esperança. Quem sabe o feitiço, passado de rainha a princesa por longos séculos, não funcionasse?
Quem sabe o lacaio, formoso, ombros largos, apetitoso aos olhos de todas as moças casadouras do reino, não se apaixonasse por ela?
Não era nenhum principe, verdade, mas pra quem estava quase que fadada a casar com um sapo, qualquer melhora era lucro grande.
Parece que depois disso a coitada ensandeceu de vez.
Uns dizem que foi rebaixada de princesa a bruxa oficial do reino, perdeu os dentes, ganhou verrugas e uma vassoura última geração, com um motor de fazer inveja a fórmula um.
Outros dizem que, como o lacaio não se mancou e continuou ignorando solenemente a coitada, a mesma mandou que lhe decepassem a cabeça sem anestesia nem nada.
Há ainda uma corrente que diz que a pobre ficou solteirona e começou a se meter na vida de todo o mundo ao redor. Falava da vida alheia que era uma beleza. Cascudava sobrinhos, implicava com todos os sapos do reino, e vivia a vociferar contra tudo e todos.
Mas a verdade, a verdade mesmo, verdadeira, é que ela desistiu de ser princesa, fugiu do reino encantado, veio morar em Copacabana e, todas as noites é vista no calçadão com a sua bolsinha amarela e sua mini saia, e escolhe o principe que bem entender pra lhe contar histórias pela noite a dentro.
Depois que mudou de vida descobriu que a gente pode ser feliz pra sempre, é só mudar o rumo da história.
E quem quizer que conte outra...
(Elza Fraga)
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
DESEMBARQUE
.
Eram jovens, uma vida inteira pela frente a ser descoberta, aproveitada, sorvida, pensava ele ávido de coisas diferentes.
Uma vida inteira pela frente para caber todos os sonhos que acalentava no peito, para ser feliz finalmente, pensava ela ávida dele e do desfrute das promessas.
"Que bela noite", dizia ela, "quantas estrelas piscando no céu."
"Vieram só para enfeitar a sua noite", respondia ele...
"Está vendo aquela grandona, a mais brilhante?... A noite a teceu só para iluminar os seus cabelos... E a pequenininha, escondida entre as nuvens, está apenas escondendo os nossos beijos dos olhares curiosos."
Mas o tempo não para a escutar tolas conversas, ele galopa qual cavalo livre em prados abertos... Com eles não foi diferente. Veio o ajuntamento, a descoberta, o desfrute, a monotonia, o enfado e, finalmente, o entojo... Afe!... que não havia um dia sem briga e nem uma noite sem dor de cabeça, desculpa universal de todas as mulheres quando o amor claudica...
Eram maduros, sonhos opostos e insatisfeitos, filhos criados e voando vidas próprias...
"Que bela noite" - disse ela - talvez cabeça num passado longe, lembranças vagas de um tempo enterrado ou esquecido. "Quantas estrelas piscando no céu para enfeitar algum amor que, porventura, ainda insista em acreditar na felicidade."
"Deixa de ser burra, sua tola", ele responde, "acaso não aprendeu, com toda esta idade, que estrelas são apenas corpos celestes formados de plasma, o quarto estado da matéria, e não de gás, como muitos pensam, e que se mantém coeso devido sua força gravitacional?"
E foi aí, nesta noite de céu estrelado, que ela desistiu de vez de tudo e desceu do bonde da vida...
(Elza Fraga)
Eram jovens, uma vida inteira pela frente a ser descoberta, aproveitada, sorvida, pensava ele ávido de coisas diferentes.
Uma vida inteira pela frente para caber todos os sonhos que acalentava no peito, para ser feliz finalmente, pensava ela ávida dele e do desfrute das promessas.
"Que bela noite", dizia ela, "quantas estrelas piscando no céu."
"Vieram só para enfeitar a sua noite", respondia ele...
"Está vendo aquela grandona, a mais brilhante?... A noite a teceu só para iluminar os seus cabelos... E a pequenininha, escondida entre as nuvens, está apenas escondendo os nossos beijos dos olhares curiosos."
Mas o tempo não para a escutar tolas conversas, ele galopa qual cavalo livre em prados abertos... Com eles não foi diferente. Veio o ajuntamento, a descoberta, o desfrute, a monotonia, o enfado e, finalmente, o entojo... Afe!... que não havia um dia sem briga e nem uma noite sem dor de cabeça, desculpa universal de todas as mulheres quando o amor claudica...
Eram maduros, sonhos opostos e insatisfeitos, filhos criados e voando vidas próprias...
"Que bela noite" - disse ela - talvez cabeça num passado longe, lembranças vagas de um tempo enterrado ou esquecido. "Quantas estrelas piscando no céu para enfeitar algum amor que, porventura, ainda insista em acreditar na felicidade."
"Deixa de ser burra, sua tola", ele responde, "acaso não aprendeu, com toda esta idade, que estrelas são apenas corpos celestes formados de plasma, o quarto estado da matéria, e não de gás, como muitos pensam, e que se mantém coeso devido sua força gravitacional?"
E foi aí, nesta noite de céu estrelado, que ela desistiu de vez de tudo e desceu do bonde da vida...
(Elza Fraga)
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
O DIA EM QUE A HISTÓRIA MORREU

.
Se lhe perguntassem o ofício não tinha dúvidas, contava histórias e ponto. E por encomenda.
Queriam histórias de bichos, de fadas, de bruxas malvadas,de saci pulando na floresta, de estrelas fazendo tiaras de luz e enfeitando cabelos de princesas, de principes beijadores, de sapos encantados? Era só pedir!
Queriam modernismo, carros, homens cheirando a lavanda, mulheres abusadas que fugiam de casa pra ganhar seu sustento vendendo o que tinham, bandidos que roubavam corações de meninas donzelas ou nem tanto, pancadaria, sangue? Também era só pedir.
Estava nesta vida desde que se conhecia por gente. Começou, lá quando era um palmo de gente, inventando lendas para escapar dos cascudos e beliscões de Cotinha, que afiados assim pra doer danado nunca ninguém vira antes!
E se encorpou, se perdeu na vida com um mancebo bonito de olhos de lua que nem era daquelas bandas. Ele se foi. Seguiu no encalço como quem espreita onça nos riachos bebedouros. Achou, grudou, embarrigou, teve seus meninos, que não era boba de parir fêmea pra viver solta na vida.
Entre uma parida e outra sentava na soleira e esperava. Logo aparecia um, outro, mais outro, e ela calada, pitando e cismando, preparando na sua cabeça de enredos o repertório da tarde. E quando achava que a platéia já estava no exato tamanho do seu merecimento, despejava falação em cima do povo.
Puxava, lá dum tempo perdido, as histórias que escutara de Cotinha. Nunca iguais. A cada contada um detalhezinho novo, um tempero ardido, um molho acolá...
Depois entrava nas que, sua própria cabeça de nuvens, inventava.
E era aí que a sessão começava mesmo. Se transformava. Era a artista no palco maior e mais iluminado, sorria, gargalhava, fungava, chorava e interpretava cada personagem como se disso dependesse a sua reputação.
Num dia meio chuvoso, acordou lenta, olhou pra rede bem do seu lado esquerdo, vazia, sem função. Olhou as tralhas, conferiu o faltoso. Uma
caneca, uma muda de calça, um par de chinelos gasto, a viola e os olhos de lua. Contou as crias, essas ficaram todas espalhadas pelo quintal numa algazarra de quem não entende.
Ela entendeu. Fechou pra sempre a porta por onde entravam as histórias, trancou a mente, jogou a chave fora. Sentou na soleira, silenciosa, olhar estranho, perscrutando perdido lá pelas bandas do
fim do mundo.
O povo ainda insistiu por um bom tempo, ficava lá esperando, não sabia bem o que. Até que cansou de tentar entender porque raios a louca das histórias emudeceu assim, de uma hora pra outra, de vez,
e ficou só aquele olhar vago olhando sem ver!
(Elza Fraga)
A TRAIÇÃO DO ESPELHO
Hoje dei de cara com o espelho da sala de jantar. Não foi de caso pensado, nem de propósito. Não olhei com o olho de ver. Olhei com o olho do sem querer...
Foi bem assim, vinha flanando, procurando algo que nem sabia o que, numa insatisfação doída e doida, num repente de querer mãos e cabeça ocupadas. Quiçá um livro destes bem comportadinhos, com letrinhas mágicas e perfeitas, todas redondas, facinho de ler, facinho de compreender, pois não estava em dia de grande acuidade mental, estava mais pra lerda, uma leseira de cabeça, uma vontade de achar tudo mastigadinho...
Um jornal aberto olhou pra mim, pedinte que só. Ignorei e foi este o erro fatal,
Ao levantar a vista pra fugir das manchetes, dei de cara com o espelho, enorme, assustador, de bordas negras feitas em madeira pintada.
Levei um susto que me arregalou a cara toda, até o olho!
Aquela ali dentro do espelho, presa pela surpresa da descoberta, não era eu...
Bem, pelo menos não era a “eu” que conhecia. A eu de face perfeita e semblante fino, linhas retas e clássicas, um toque de exotismo pra confundir com beleza... Não, aquela era uma mulher gasta. A boca sem sorriso, o olho sem brilho, as faces chupadas formando vincos... Uma caricatura mal feita e mal acabada do que fui um dia. Ainda ontem eu era a ninfa. Quando foi que me transformei neste simulacro de mulher?
Talvez eu tenha parado no tempo, mas o espelho, este covarde a quem dei abrigo em parede de honra, frente a mesa de jantar, num ato de traição explícita, continuou a contar o tempo... E hoje me sabendo tremendamente despreparada para novidades ruins, resolveu me dar de troco, a medida do real...
Gente, que terra é esta em que não se pode confiar mais nem no nosso próprio espelho?!
(Elza Fraga)
Assinar:
Postagens (Atom)